
Berlim, uma cidade marcada por cicatrizes históricas e símbolos de superação, apresenta hoje um paradoxo político que ecoa com uma seletividade doutrinária. A mesma capital que, em 2024, proíbe a exibição de símbolos russos e soviéticos, como a foice e o martelo, em monumentos alusivos ao Dia da Vitória, sob a justificativa de evitar tensões e preservar a memória
, é a que simultaneamente reprime manifestações pró-Palestina com um rigor notável. Esta dualidade, longe de ser acidental, revela uma intrincada teia de prioridades políticas e interpretações históricas.
A repressão às vozes pró-Palestina em Berlim tem sido amplamente documentada. O slogan "Do rio ao mar, a Palestina será livre" foi declarado propaganda terrorista e proibido
A polícia tem recebido carta branca para intervir violentamente em protestos, resultando em detenções em massa e na proibição de itens como kufiyas e bandeiras palestinas
Há relatos, inclusive, de restrições a discursos em árabe em comícios, como ocorreu em fevereiro de 2025, quando a polícia de Berlim interrompeu um protesto pró-Palestina por cânticos em árabe
Tais medidas, que visam silenciar a solidariedade com a causa palestina, contrastam fortemente com a liberdade de expressão que se esperaria de uma democracia liberal.
No cerne dessa postura está o conceito de Staatsräson (razão de Estado), articulado pela então chanceler Angela Merkel em 2008, perante o Knesset. Merkel declarou que "A segurança de Israel jamais será negociável. Essa responsabilidade histórica da Alemanha faz parte do Staatsräson do meu país"
. Embora essa doutrina nunca tenha sido codificada em lei vinculante ou incorporada à Constituição alemã, ela se traduz em um apoio incondicional a Israel, independentemente das ações de qualquer governo israelense, mesmo de extrema direita. Essa premissa molda a política externa alemã e, por extensão, a forma como as manifestações relacionadas ao conflito são tratadas internamente.
O resultado dessa doutrina é uma seletividade que beira o absurdo. As leis destinadas a combater o extremismo são aplicadas para reprimir aqueles que denunciam o que muitos consideram um genocídio
, enquanto o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) ganha terreno e legitimidade. A AfD, cujas ligações com grupos neonazistas são documentadas, teve sua ala jovem, a Junge Alternative, classificada como extremista
Em janeiro de 2024, membros de alto escalão da AfD, juntamente com figuras do movimento neonazista, reuniram-se secretamente em Potsdam para discutir planos de "remigração" e deportação em massa de imigrantes, utilizando terminologia cunhada pelo neonazismo
Apesar dessas revelações alarmantes, a AfD é hoje a segunda força no Bundestag e seus membros circulam livremente nos corredores do Parlamento alemão
Este cenário pinta um quadro perturbador: os que se opuseram ao nazismo, representados pelos símbolos soviéticos, são banidos; os que denunciam atrocidades são equiparados a terroristas; e os herdeiros ideológicos do nazismo, com suas propostas de exclusão e ódio, ascendem ao poder e legislam. A crônica política de Berlim, assim, não é apenas um relato de eventos, mas um espelho inquietante das contradições e da seletividade que podem corroer os fundamentos de uma sociedade democrática.
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