Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

BIPOLARIDADE


Por: | 12/05/2026


     Talvez tenha sido um monge medieval, o primeiro homem a pedir desculpas por sorrir, escondendo o riso dentro da manga áspera do hábito. Talvez uma mulher puritana, no silêncio de uma casa inglesa do século XVII, reprimindo o brilho dos olhos para não parecer vaidosa diante de Deus. Talvez um pai de família, escrevendo em seu diário que a alegria excessiva era perigosa, porque Deus apreciava mais os rostos curvados do que os dentes à mostra.

 Durante séculos, a humanidade suspeitou da felicidade. A alegria era uma criatura inconveniente. Fazia barulho nas igrejas, interrompia o medo, ameaçava a disciplina. O homem austero parecia mais digno. A melancolia era vista como profundidade moral. O sofrimento conferia autoridade espiritual. Havia um certo prestígio em carregar o peso do mundo sobre os ombros.

   O sorriso precisava ser contido como se fosse uma forma de pecado escorrendo pelos lábios. Naquele tempo, ninguém dizia “seja feliz”. Dizia-se: “seja correto”.

  Assim, as pessoas aprenderam a esconder o entusiasmo como quem esconde um vício.

As pinturas antigas revelam isso. Reis imóveis. Mulheres severas. Crianças sem expressão. Não porque fossem incapazes de sentir alegria, mas porque o mundo ainda não sabia o que fazer com ela. O riso parecia vulgar. O prazer precisava de justificativa. A felicidade devia ser curta, discreta, quase clandestina.

      Então o século XVIII abriu as janelas. O Iluminismo entrou como vento novo nas salas abafadas da Europa. A razão começou a deslocar o medo religioso absoluto. Pela primeira vez, a felicidade deixou de ser vista apenas como recompensa celestial e começou a ser tratada como possibilidade terrena. Uma revolução silenciosa aconteceu nos músculos do rosto humano.

As pessoas começaram a sorrir. E sorrir virou quase um dever social.

    Os dentistas deixaram de apenas arrancar dentes para preservá-los. Escovas, palitos, espelhos e batons apareceram como pequenas armas da modernidade. Os romances passaram a descrever “sorrisos encantadores”. A felicidade virou linguagem política. A Declaração de Independência dos Estados Unidos transformou a “busca pela felicidade” em direito humano. A França revolucionária anunciou que a felicidade comum era objetivo da sociedade.

O mundo trocou a solenidade pela vitrine.

Mas toda mudança cobra seu preço.

Se antes as pessoas pediam desculpas por serem felizes, agora passaram a pedir desculpas por estarem tristes.

 A sociedade moderna construiu uma espécie de ditadura luminosa da felicidade permanente. Os rostos precisam parecer bem. As fotografias exigem alegria instantânea. As redes sociais funcionam como desfiles de felicidade editada. O sofrimento virou constrangimento público. O luto incomoda. A tristeza precisa ser rapidamente medicada, corrigida, escondida.

Mudaram os séculos. Mudou apenas o tipo de culpa. Antes, o homem temia rir diante de Deus. Agora teme parecer fracassado diante dos outros.

   Talvez os antigos soubessem algo que esquecemos: nenhuma vida suporta felicidade contínua. E talvez nós saibamos algo que eles ignoravam: a tristeza não é virtude automática.

Entre um extremo e outro, a humanidade continua procurando equilíbrio.

      Os caçadores-coletores não tinham escovas de dente, antidepressivos ou manuais de autoajuda. Mas possuíam algo que hoje rareia: pertencimento. Dependiam uns dos outros para sobreviver. A felicidade deles talvez estivesse menos no indivíduo e mais no grupo, menos no prazer privado e mais no calor da fogueira compartilhada.

  Hoje, temos conforto, tecnologia, anestesias emocionais e algoritmos que recomendam músicas para cada estado de espírito. Mesmo assim, muita gente atravessa multidões sentindo uma solidão pré-histórica.

Talvez porque a felicidade nunca tenha sido apenas alegria. Talvez felicidade seja poder atravessar a tristeza sem precisar escondê-la. Talvez seja sorrir sem culpa. Sofrer sem vergonha. Talvez a humanidade ainda esteja aprendendo isso.


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