LETRA LÚDICA
Hildeberto Barbosa Filho
O poeta na mira do repórter
Marcelo Abreu é repórter que sabe o que faz. Na revista Pernambuco, de abril de 2026, entrevistando Sérgio de Castro Pinto, traça-lhe o perfil, em texto de entrada e numa sequência de perguntas que podem servir perfeitamente como um portal de acesso, para o leitor, ao universo poético que o poeta construiu ao longo do tempo.
Dizia T. S. Eliot, num dos versos de A terra desolada, que “abril é o mais cruel dos meses”, decerto pelos estragos da Primeira Guerra Mundial no cenário londrino. Sérgio de Castro Pinto é do mês de abril, dia 25, e fez exatamente seus 79 anos, numa trajetória de inteira dedicação aos sortilégios da palavra lírica. A entrevista, à parte o ditame das guerras que ainda persistem no mundo dito “civilizado”, traz o sabor de homenagem e reconhecimento.
O repórter, de saída, cita palavras de Ivo Barroso, marcadas pela pertinência, sobretudo porque, em síntese, o poeta-tradutor toca no eixo nuclear da poesia do paraibano, nestes termos: “Seus poemas são imagens que conseguem, com duas pinceladas, pintar um mural salpicado de humor”. A economia dos meios expressivos e a percepção filtrada pelo olhar humorístico condensam, sim, o jogo imagético do autor de Gestos lúcidos. São elementos intrínsecos à sua dicção, desde o primeiro livro às últimas coletâneas.
Algumas passagens sublinhei, e, nelas vejo a presença do poeta que sente e pensa em meio às solicitações da vida e da expressão literária. Seu primeiro contato com o país da poesia se deu, diz ele, através do pai, Petrônio de Castro Pinto, cronista que escrevia “sob a égide da inspiração”. O assunto recorrente desse cronicário, segundo o poeta, residia na “luta entre liberais e perrepistas, em 1930”. A voz poética se insinua pela prosa jornalística, quando Sérgio de Castro Pinto arremata: “Comecei a ler as crônicas e a ter uma saudade atávica da infância dele, imagine”. Um filho com saudade da infância do pai! Matéria fértil para o devaneio lírico.
Mais à frente, respondendo a outra indagação do repórter, o poeta se sai com esta maravilhosa digressão filosófica: {...} nenhuma vida é inteira, por mais completa que seja, falta sempre alguma coisa”. Claro: a vida, a realidade, o mundo, tudo está cheio de buracos, lacunas, vazios, indeterminações. Talvez a poesia, ou melhor o poema, exista exatamente para preencher esses espaços desconhecidos e inexplorados.
A partir da frase de William Wordsworth (“A poesia é a emoção recolhida na tranquilidade”), referida por ele tantas vezes, levanta a sugestiva hipótese de que os poetas, temos “um almoxarifado lá dentro”, onde vamos “depositando as coisas”. Perfeito. O poema pressupõe o estado poético. O estado poético é amorfo e caleidoscópico. Funciona como um depósito, e, cedo ou tarde, se abre ao abrigo das palavras organizadas na composição do poema. Meio à Valéry, diria que a inspiração possui também uma história.
Se à linguagem do poeta não escapa a agulha afiada da ironia, ao homem não falta o gosto do lúdico, o apelo sempre essencial do riso enquanto categoria de leitura. Falando de bichos, motivos tão recorrentes na sua obra poética, afirma, entre sarcástico e brincalhão: “Gosto mais de animais para fazer poemas do que para colocar dentro de casa”. Aqui, nos aproximamos, tirante, para mim, a companhia dos pássaros e dos muitos cavalos que correm nos meus sonhos.
Lembrando Drummond, salienta que na poesia “a palavra se liberta do estado de dicionário e ganha outras dimensões e significados”. Afirma também, em outro tópico, que sua poesia é “calcada nas coisinhas miúdas, nos sobejos de Deus”. Estes “sobejos de Deus” me parecem ótimos. Verdade: constitui peculiaridade única, ao estilo poético do autor de A ilha na ostra, os restos, os rastros, os vestígios, o pequeno, o ainda informe. Certamente por isto, em momento de aguda lucidez e de humor inteligente, como que resume o percurso singular de sua poética individual, declarando: “Como no livro de Cortázar, prefiro dar a volta ao dia em 80 mundos do que dar a volta ao mundo em 80 dias”.
A entrevista é um gênero fundamental do jornalismo literário. Desenvolvida com competência e criatividade, ultrapassa as grades estreitas da convenção informativa, para se transformar naquele “diálogo possível” de que falava Cremilda Medina. “Sérgio de Castro Pinto: o poeta é um livre atirador”, conduzida por Marcelo Abreu ilustra bem esse modelo.
(Texto publicado ontem, 10-05-26, em A União)
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