Amável e José Octávio
Francisco Gil Messias
gmessias@reitoria.ufpb.br
Coloco os dois juntos no título porque assim viveram a vida inteira e não dá para separá-los agora. Décadas de um casamento feliz, décadas de companheirismo leal, décadas de presença na vida cultural paraibana. A cidade aprendeu a vê-los juntos e a associá-los como uma entidade única, indivisível. Um dos casais 20 da aldeia, sem nenhuma dúvida.
Há casais assim. E é bonito de se ver. Tão integrados os dois, que não se concebe vê-los separados. Do mesmo modo que não concebemos José Octávio sem a sua emblemática pasta de couro na mão, cheia de livros, papéis e documentos. Ele a leva para tudo que é canto, de tal maneira que a pasta passou a fazer parte de seu corpo, extensão de seu braço. No seu caso, homem e pasta compõem a imagem do intelectual itinerante, sempre a se deslocar de um lugar para outro na velha urbe, sempre a caminho de um evento de cultura de que participará falando ou ouvindo. Possivelmente ele seja, e não é de hoje, o mais atuante de nossos scholars, na linha de um Virgínius da Gama e Melo e de um Joacil Pereira, por exemplo, alguém que se sabe presente no lançamento de livro, na palestra, no debate, na defesa de tese e assim por diante. E ao lado dele a figura amável da companheira de sempre. Na Academia Paraibana de Letras, da qual hoje José Octávio é o decano, ela se fez tão presente, acompanhando-o, que se tornou naturalmente uma espécie de uma acadêmica honorária.
Entretanto, não se veja jamais o papel de Amável como o de uma coadjuvante ou de uma eficiente secretária tempo integral. Ela foi mais, muito mais que isso. E tomou a si esse papel mais que voluntariamente: eu diria orgulhosamente, pois via-se em seu calmo semblante a satisfação pessoal que ela tinha em estar ao lado do marido, opinando, sugerindo e até mesmo, quando era o caso, advertindo-o. O próprio José Octávio confidenciou-me que ela era o seu ponto de equilíbrio, trazendo-o à serenidade após eventuais tempestades. Enquanto ele aqui e acolá tinha algum arroubo, ela permanecia tranquila para aparar algum excesso.
E ao longo do tempo não apenas datilografava ou digitava os textos do infatigável consorte, mas revisava-os com cuidados de profissional do ofício, e até opinava quanto ao conteúdo e a forma, transformando-se, não raro e em alguma medida, em verdadeira coautora. E nessas ocasiões tinha-se a plena amalgamação dos dois parceiros de vida e de trabalho.
Diz-se que Amável geria a vida prática de José Octávio, cuidando das contas bancárias, dos pagamentos, das compras e de tudo que dissesse respeito ao dia a dia. Se assim foi, não foi ela a primeira nem a última: muitas companheiras de intelectuais, artistas e políticos costumam assumir a gerência da vida doméstica e familiar, a fim de que os maridos se dediquem exclusivamente às suas exigentes atividades. Clementine, a mulher de Churchill, foi assim. E muitas mais. E não se veja nisso uma diminuição da importância das mulheres. Pelo contrário. Não é à toa que se costuma dizer que por trás de todo grande homem há sempre uma grande mulher. E a grandeza dessa mulher quase nunca é ostensiva, quase nunca salta aos olhos de quem vê, mas se esconde nas aparentemente pequenas tarefas do cotidiano, aquelas que dão o necessário suporte ao resto da família. Pois Amável foi essa imensa retaguarda na vida de José Octávio e de Victor, o filho único.
A propósito, sempre exaltei as chamadas donas de casa, mulheres do lar. Têm sido elas, através dos milênios, que sustentam o mundo nos ombros. Os homens, vão para o campo, para a guerra, para as viagens, e elas ficam em casa garantindo a subsistência da família, quase sempre numerosa, com idosos e filhos sob seus cuidados. Quem disser que isso não tem valor, que isso é uma atividade menor, é um completo idiota, nada sabe da vida. As militantes do feminismo nem sempre valorizam essas heroínas domésticas e quando assim agem nem percebem que estão eventualmente a desvalorizar as respectivas mães e avós.
Amável não foi exclusivamente do lar, pois trabalhou na administração estadual, diga-se de passagem, o que prova que soube se desdobrar para atender muitas demandas. Discreta, inteligente, cordial e atuante, foi verdadeiramente uma mulher notável, em todos os sentidos.
Tão inseparáveis são, que certamente continuaremos a vê-la ao lado de José Octávio, a companheira perfeita que sempre foi e continuará sendo. Sua presença suave e elegante é daquelas que nunca se apagam.
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário