
Em julho de 2011, depois de alguns dias de cuidados, como ração e água. Esperávamos que alguém o adotasse. Morávamos num apartamento alugado de dois quartos, mas um era o alojamento das gatinhas Musa e Sofia, nossas pets mais antigas e que ainda estão conosco. Não havia espaço para um cão. Até hoje não sabemos se ele era abandonado ou se estava perdido. O fato é que estava apavorado, na reentrância de um tapume, entre a calçada e este, numa avenida movimentadíssima e perigosa, e em frente a uma plaraforma de ônibus.
Depois de umas duas semanas desse cuidado paliativo, observamos que ele definhava e já não valorizava tanto as nossas visitas. Como se entendesse que não pretendíamos adotá-lo. Numa dessas ocasiões, troquei olhar com minha mulher e ela respondeu: "Sim, vamos comprar uma coleira para ele e o levamos". E assim o fizemos. Dali fomos direto à clínica veterinária, onde a plantonista o examinou, estimou a idade em dois anos e o pesou. Estatura de cachorro que devia pesar 14 kg, mas estava com 7,9 Kg, devido à situação de abandono. Medicámo-lo, fizemos exames laboratorias e de imagens. Foram constatadas várias doenças. Mas o tratamos, restabelecemos sua saúde e iniciamos a procura por um imóvel em que pudéssemos mantê-lo conosco. Dois meses e meio após sua chegada, com ele já recuperado, alugamos a casa em que hoje moramos, e a qual compramos no ano seguinte. Ele foi o primeiro morador, mudando para cá dois dias antes de nós, e aqui vivendo por quase 15 anos.
Era o meu amigo sempre fiel, meu companheiro de caminhadas pelo bairro, em que eu o conduzia com coleira e guia até 2024, quando ele perdeu em definitivo a visão. Já não ouvia desde 2022. Mesmo cego e sem ouvir nada, percebia pela vibração quando eu chamava alto pelo seu nome, ou quando eu batia com o pratinho dele no chäo, chamando-o para as refeições. Nos últimos tempos, passou a comer ovos cozidos pela manhã. Mal percebia os primeiros movimentos matinais na casa, começava logo seu latido fofo, de cão desdentado, a reclamar seu desjejum.
Na última terça-feira, quase ao amanhecer, ouvi um latido lá no portão da rua. Não era o latido de Guri, meu outro outro cão. Mas rambém não parecia o latido dele, Pepe. Era. Ele caira da escada e rolara por 20 degraus, até o portão. Quando desci para tirar o lixo, ele estava adormecido, rente ao portão. Peguei-o, subi as escadas com ele e o soltei na lavanderia, onde ele permanecia a maior parte do dia. À tarde, quando voltei do trabalho, ele estava muito abatido. Corri com ele para a clínica, onde ficou internado. Na quinta, à hora do almoço, passei para vê-lo. Estava sob forte analgesia e semi-adormecido. Mas abriu de leve os olhinhos quando acariciei-lhe a cabecinha e chamei-lhe o nome bem perto de seu ouvido.
Às quatro da tarde, recebi a notícia de que não resistira a uma parada cardíaca. Ainda não consegui sair daquele estado em que o mundo parece ter perdido todo o sentido.
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