Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

DESANDANÇA


Por: | 16/05/2026


  O espelho da academia devolvia corpos em movimento como se devolvesse o próprio tempo.

Braços erguidos, pernas ritmadas, respirações cortando o ar ao som de uma música repetitiva, dessas que são feitas para acelerar o coração até que o cérebro esqueça de pensar.

    Num canto, sentado com um bloco de notas aberto, um homem escrevia.

A professora de dança contava os passos como quem administra o caos: um, dois, gira, respira, sorri.E todos obedeciam.

Estranha beleza naquela coreografia coletiva. Uma tentativa de felicidade sincronizada.

Como se a humanidade inteira tivesse decidido não parar mais.

O observador anotava frases rápidas porque até as ideias, agora, parecem ter prazo de validade. 

  Antigamente, as pessoas escreviam cartas demoradas. Hoje, escrevem mensagens aflitas. Antigamente, olhava-se o horizonte.

Hoje, olha-se a notificação.

A sala inteira dançava diante do espelho.

E o espelho, silencioso, fazia o que os espelhos fazem desde a invenção do primeiro reflexo: mostrava sem explicar.

  Ali estavam homens e mulheres correndo atrás de alguma coisa invisível.

Não era apenas saúde.

Não era apenas estética.

O espelho refletia uma tentativa desesperada de continuar pertencendo ao tempo.

O século XXI transformou o envelhecimento numa culpa estética. As rugas viraram inimigas públicas. O cansaço tornou-se vergonha. Parar virou suspeita.

A professora gritava: “Mais energia!”

E todos aumentavam o ritmo feito soldados convocados para uma guerra contra o próprio corpo.

O observador percebeu então que a academia era uma espécie de catedral contemporânea.

No passado, buscava-se a salvação da alma.

Agora, busca-se a salvação da imagem.

O espelho multiplicava pessoas infinitamente.

Cada reflexo parecia perguntar: “Você ainda é aceito?” “Você ainda é jovem?”

“Você ainda consegue acompanhar?”

Ninguém respondia.

Dançavam.

     O homem do bloco de notas olhou para os próprios cabelos embranquecidos refletidos no vidro amplo da sala.

Lembrou-se de quando a vida tinha intervalos.

As tardes longas. As conversas sem relógio.

Os domingos pareciam durar um século inteiro. Hoje, até o lazer chega cansado.

A coreografia prosseguia.

   Corpos giravam em perfeita obediência ao ritmo imposto pelas caixas de som.

E aquilo parecia muito mais do que dança.

Parecia a própria civilização contemporânea: todos correndo, sorrindo, transpirando, repetindo movimentos, sem saber exatamente quem escolheu a música.

O espelho continuava imóvel.

Talvez os espelhos sejam os últimos filósofos silenciosos do mundo.

Eles não corrigem ninguém.

Não elogiam.

Não condenam.

Apenas devolvem.

E devolver, às vezes, é cruel.

O observador fechou o bloco de notas devagar.

A aula terminou sob aplausos automáticos.

Alguns correram imediatamente para os celulares, como náufragos retornando ao mar que quase os afoga.

  Então ele percebeu que o maior exercício daquela sala não era físico.

Era sustentar a própria imagem diante do espelho sem esquecer quem se é quando a música acaba.


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