
Minha cara advogada, sente-se um instante. Tire os sapatos, afrouxe o nó invisível que a profissão aperta no seu pescoço todos os dias e me escute. Hoje, não quero falar de jurisprudência, de prazos peremptórios ou de embargos protelatórios. Quero falar de nós. Quero falar da carne, do osso e do sangue que fervem debaixo dessa beca que você veste com tanta altivez.
Você leu as notícias da Paraíba? Aquele episódio grotesco, kafkiano, ocorrido na 2ª Vara Integrada de Santa Rita. A advogada Izabela Siqueira, no exercício sagrado de sua profissão, defendendo uma vítima de crime sexual veja bem, o abismo da dor humana ali exposto, foi arrancada da sala de audiência. Não por falta de argumentos, não por desrespeito à lei, mas pela força bruta. Dois policiais homens, a mando de um juiz, a arrastaram pelos braços.
“Despreparada”, “inconveniente”, “cale a boca”. As palavras do magistrado ecoam não apenas naquela sala de portas trancadas, mas nos corredores de todos os fóruns deste país. E eu te pergunto, minha amiga: o que é a inconveniência feminina aos olhos do poder estabelecido?
A inconveniência da mulher é, historicamente, a sua recusa em ser invisível. Quando Izabela pediu cautela diante do sofrimento de uma mãe que desmaiava ao reviver o trauma da filha, ela não estava sendo inconveniente; ela estava sendo humana. Mas a humanidade, em certos tribunais, parece ser uma afronta à liturgia. A toga, que deveria ser o manto da ponderação e da justiça, muitas vezes se transforma na armadura de um ego inflado, de um patriarcado que não suporta ser questionado por uma voz feminina que não treme.
“Que OAB que nada”, disse ele. A frase é um sintoma de uma doença crônica: a ilusão de onipotência. O juiz que se acha acima da lei, acima das instituições, acima do próprio respeito humano. Quando ele manda arrancar a advogada da sala, deixando para trás sua bolsa, seus documentos, seu notebook, ele não está apenas violando prerrogativas. Ele está tentando arrancar a dignidade. Ele está dizendo: “Aqui, a sua voz não vale nada. Aqui, a força física suplanta a força do direito”.
Mas sabe o que é mais fascinante e, ao mesmo tempo, aterrador? É que a força bruta é sempre o último refúgio da incompetência argumentativa. Quando a autoridade não consegue se impor pela razão, ela apela para a truculência. O juiz, ao ordenar a agressão, assinou o próprio atestado de fraqueza. Ele não suportou a firmeza de uma mulher que, mesmo ameaçada, manteve-se de pé, exigindo o respeito que a lei lhe garante.
Minha cara, o direito é uma ficção civilizatória que criamos para não nos matarmos uns aos outros. Mas, de vez em quando, a barbárie rasga o verniz dessa civilização e mostra os dentes. E, quase sempre, esses dentes estão voltados para nós, mulheres. A violência institucional de gênero não é um conceito abstrato de sociologia; é o braço do policial apertando o seu, é o grito de “cale a boca” ecoando na sala de audiência.
Por isso, escrevo a você. Para que você não se cale. Para que você entenda que cada vez que você se levanta em uma sala de audiência, você não está apenas defendendo o seu cliente. Você está defendendo o direito de existir, de falar, de ser “inconveniente” em um mundo que ainda prefere o nosso silêncio.
A OAB pediu o afastamento do juiz. O CNJ será acionado. É o mínimo. Mas a verdadeira justiça não se faz apenas nos tribunais superiores; ela se faz na nossa recusa diária em abaixar a cabeça.
Então, amanhã, quando você vestir a sua beca, lembre-se de Izabela. Lembre-se de que a sua voz é a arma mais poderosa contra a truculência disfarçada de autoridade. Seja inconveniente. Seja insuportavelmente firme. Porque, no fim das contas, a toga pode até tentar calar a boca, mas a história, minha amiga, a história sempre cobra a conta de quem tenta silenciar a verdade pela força.
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