Hildeberto Barbosa Filho
Meu caro amigo, Palmari Lucena:
Quem foi que disse que a carta não é um gênero literário? Se na sua pauta discursiva, ela, a palavra, recebe um tratamento especial e chama a atenção do leitor para si mesma, no seu corpo semântico e melódico, estamos face a face com uma experiência estética no âmbito da linguagem.
Não importa se a carta seja real ou fictícia. Não importa o assunto nem a motivação. Aliás, a carta fictícia contém um elemento a mais que pode reforçar a sua literariedade. É a verossimilhança, com a intrínseca lógica do que poderia ser e não do que, de fato, é, como se exige da verdade histórica. Aristóteles, em sua Poética, esclarece bem esta velha questão.
Suas Cartas apócrifas, parece-me, constituem, na coesão e coerência do conjunto, um exemplo palpável de arte literária, ao mesmo tempo em que estratifica ingredientes reflexivos do melhor ensaio crítico, à maneira dos ingleses.
Tópicos variados e enfoques plurais me trazem a presença vívida de múltiplos personagens, distanciados no tempo, porém, interligados pelos liames das “afinidades eletivas” de que fala Goethe ou pelo contraste e pela diferença que também são formas de complementação.
Você, lançando mão do disfarce, da máscara mental, da vocalidade alheia, incorpora o pensamento e a sensibilidade de outras personas, para instaurar um diálogo com os seus diversos destinatários, fundado, sobretudo, na diversidade do conhecimento e numa seleção curiosa de interesses e motivações.
Chama-me a atenção, em especial, sua capacidade de transitar, como uma espécie de andarilho das ideias, do espaço e do tempo, por searas que ferem diretamente o acervo dos saberes, tocado pelo sortilégio da política, da filosofia, da estética, da religião, da literatura, do cotidiano e de outros escaninhos que afloram no debate vivo da cena cultural.
Ora, você aproxima personagens de períodos e geografias diferentes; ora, você os confronta na arena precária dos conceitos ou na contradição interna às teorias; ora, você descortina vinculações e abismos surpreendentes entre seus remetentes e seus destinatários.
Diria que existe, prefigurando o andamento interior dessas cartas, tanto uma pedagogia política e social quanto uma ecologia do ser e do fazer. De um lado, pontificam os que escrevem, a partir de seus fundamentos cognitivos, de suas vivências individuais, e, do outro, figuram os que podem usufruir das lições e diretrizes expostas sob a cadência de uma didática que mescla veemência, criticidade, criatividade, ironia e estética,
Nem sempre o destinatário é uma pessoa. Você assume vozes outras para se dirigir a países, povos, profissionais, épocas históricas, administradores, categorias sociais, entidades, instituições, sempre com o intuito de exercitar a crítica construtiva acerca das práticas, das ações e das atitudes que movem o processo civilizatório. Se Hamlet, o personagem shakespeareano escreve a W. J. S olha, por exemplo, o filósofo Friedrich Nietzsche o faz ao povo brasileiro, assim como o ensaísta Giovanni Papini escreve aos “Homens do século XXI”.
A propósito, a carta do autor de Assim falou Zaratustra é uma das que mais me tocou fundo o coração, não somente pelas verdades que revela, mas também pelo estilo em que vem vazado o pensamento. A fraseologia aforismática do genial pensador alemão é recuperada em tom e em perspectiva, para assinalar, com o destemor de sempre, que “Os que querem vos salvar, geralmente querem vos possuir. Um povo forte não espera messias – forma indivíduos livres, que não se curvam à moral de rebanho nem se rendem à mediocridade confortadora do coletivo cego”. E, mais à frente: “É preciso aprender a dançar com o caos, não domesticá-lo com ilusões”. Ou, “o espírito livre não é aquele que concorda com tudo, mas o que tem coragem de discordar de si mesmo”, pois, “somente o desconforto gera movimento. Somente a ferida gera superação”.
Gostaria de destacar outras cartas pela força de seus ensinamentos, pelo humanismo que exalam em suas palavras, pelo compromisso ético que assumem perante o destino da humanidade. As cartas assinadas por Giordano Bruno, Sua Santidade o Dalai Lama, Dom Hélder Cãmara, Golda Meir, Papa Francisco, Napoleão Laureano e Nelson Mandela me parecem selar um pacto sagrado entre coração e razão no sentido de um mundo melhor.
Além disso, meu caro Palmari, você acerta em cheio, quando desloca e condensa personagens tão distantes e tão próximos, demonstrando, aqui, que sabe dos sigilos que os irmanam na modulação de seus produtos artísticos e literários. James Dean e Zezita Matos, Hamlet e Solha, Tenente Lucena e seus filhos e seus netos. Ou, já em clave antagônica, Luiz Gonzaga e os arraiais modernos, o compositor Heitor Villa-Lobos e os jovens músicos, o filósofo Alexis de Tocqueville e a classe política brasileira, o professor Lauro Pires Xavier e os senhores do poder e do progresso devastador, Ulysses Guimarães e os parlamentares do Brasil.
Seu método, se assim posso chamar, funciona como um insight, fruto de sua intuição criativa e de sua virtualidade no lidar com os desafios da palavra. Seu método pressupõe o olhar de quem viaja por mapas insólitos, de quem conhece o mundo por dentro de suas geografias inusitadas, de quem aprendeu a sabedoria de climas desiguais, etnias, meios e idiomas vários.
O peregrino dos povos e o experimentador de culturas diferentes, isto é, você, na altura de sua intensa e vasta experiência de vida e de leitura, como que realiza, com essas cartas, um outro tipo de viagem. Desta feita, uma viagem pelas ideias, pelos conceitos, pelos fatos, pelas palavras, abrindo, assim, para nós, leitores, um mundo cheio de surpresas, provas, exemplos, atitudes que sinalizam para a possibilidade de uma civilização melhor. Bem a seu feitio, de homem livre, lúcido e aberto.
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