Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

A MEDIDA


Por: | 29/05/2026


  Quem mede um homem público pelo volume da voz talvez nunca tenha visto um ribeirinho empurrando sozinho uma canoa contra a correnteza do Rio Solimões. Grandeza nunca foi barulho. Grandeza é resistência.

    Nesta semana, o Amazonas viu desembarcar mais que um presidente. Viu chegar dinheiro para pesquisa, logística, energia e bioeconomia. Dinheiro para transformar o açaí em renda, o cupuaçu em mercado, o pescado em dignidade. Dinheiro para o interior deixar de ser apenas estatística eleitoral e voltar a ser território humano.

    Luiz Inácio Lula da Silva veio ao Amazonas trazendo bilhões em investimentos. Barcaças para cortar os rios, energia para comunidades esquecidas, infraestrutura para o escoamento da produção, recursos para cooperativas que vivem da floresta sem destruí-la. Pode-se discordar de um presidente em muitas coisas. A democracia existe para isso. Mas há momentos em que a realidade se impõe sobre o ódio organizado.

Um chefe de Estado é isso: alguém que olha para um mapa e enxerga pessoas. Não apenas votos.

  Enquanto isso, parte da política brasileira parece ter desaprendido o significado da palavra nação. Transformaram o patriotismo em camiseta falsificada e a soberania em postagem de rede social. Gente que bate continência para interesses estrangeiros enquanto chama isso de amor ao Brasil.

   Há políticos que entram na vida pública como quem entra num templo. Outros entram como quem invade um supermercado às pressas, enchendo carrinhos de influência, imunidade e sobrenomes.

   O clã Bolsonaro pertence a uma geração política moldada mais pelo ressentimento do que pela construção. Uma política que vive da fumaça permanente, da suspeita contínua, do inimigo inventado antes do café da manhã esquentar. O país real pouco aparece. O povo surge apenas como figurante emocional de discursos inflamados.

 No Amazonas profundo, porém, a vida não cabe em hashtags. O produtor rural quer estrada. O pescador quer gelo e transporte. A cooperativa quer crédito. A comunidade isolada quer energia elétrica. A mãe do interior quer internet para o filho estudar sem precisar abandonar a floresta.

O resto é espuma.

   É simbólico ver recursos chegando justamente ao coração da Amazônia num tempo em que tanta gente transformou o Brasil num ringue histérico. Governar deve ser um verbo ligado ao futuro, não ao ressentimento.

Os rios amazônicos ensinam isso silenciosamente. Água parada apodrece. Água que segue em frente constrói caminho.

  A história vai fazer essa distinção um dia. Entre os que passaram pelo poder alimentando incêndios e os que tentaram deixar alguma ponte depois da fumaça.




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