Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

SONETO PARA CORPO COMO UM BARCO À DERIVA


Por: | 29/05/2026

 

Quando o sal do teu peito se faz céu noturno,

e a noite é um polvo lento sobre os teus ossos,

eu desço aos navios que dormem no teu ventre

como frutos perdidos nos porões do sul.


Teu cheiro tem a força de um temporal domado,

teus cabelos algas prendem meu nome antigo.

Amo em ti a distância que o mar não termina,

amo em ti a concha onde a aurora foi presa.


Minhas mãos, dois navegantes cegos, reconhecem

o mapa do teu flanco, a enseada úmida,

o farol vesgo da tua cicatriz mais linda.


E quando a espuma fria do dia nos cubra,

naufragaremos juntos doces, afogados

num porto que só existe dentro do teu nome.

Alessandra Del’Agnese 


Porto onde o mar desaprende a solidão


Sei que o horizonte é uma ferida que o barco não cura,

mas juro: tua ausência tem forma de enseada.

Vivo entre dois movimentos a vela que parte

e a âncora que sonha com o teu nome na areia.


O vento sopra palavras que escreveste noutro tempo:

"Além do cabo, existe um cais só para nós".

Eu recolho conchas vazias, guardo a espuma fria,

teço cordas de espera com os fios do meu cabelo.


Hoje o mar amanheceu manso como uma promessa.

As gaivotas não gritam; apenas desenham círculos.

Algo no sal me diz que tu já voltaste.


Não preciso de farol, não preciso de estrelas.

Basta que o vento traga, de manso, a tua respiração

e eu descubro que o oceano inteiro cabe num num encontro. 


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