
Quando o sal do teu peito se faz céu noturno,
e a noite é um polvo lento sobre os teus ossos,
eu desço aos navios que dormem no teu ventre
como frutos perdidos nos porões do sul.
Teu cheiro tem a força de um temporal domado,
teus cabelos algas prendem meu nome antigo.
Amo em ti a distância que o mar não termina,
amo em ti a concha onde a aurora foi presa.
Minhas mãos, dois navegantes cegos, reconhecem
o mapa do teu flanco, a enseada úmida,
o farol vesgo da tua cicatriz mais linda.
E quando a espuma fria do dia nos cubra,
naufragaremos juntos doces, afogados
num porto que só existe dentro do teu nome.
Alessandra Del’Agnese
Porto onde o mar desaprende a solidão
Sei que o horizonte é uma ferida que o barco não cura,
mas juro: tua ausência tem forma de enseada.
Vivo entre dois movimentos a vela que parte
e a âncora que sonha com o teu nome na areia.
O vento sopra palavras que escreveste noutro tempo:
"Além do cabo, existe um cais só para nós".
Eu recolho conchas vazias, guardo a espuma fria,
teço cordas de espera com os fios do meu cabelo.
Hoje o mar amanheceu manso como uma promessa.
As gaivotas não gritam; apenas desenham círculos.
Algo no sal me diz que tu já voltaste.
Não preciso de farol, não preciso de estrelas.
Basta que o vento traga, de manso, a tua respiração
e eu descubro que o oceano inteiro cabe num num encontro.
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