Afazeres
Hildeberto Barbosa Filho
Primeiro
varri todo o quintal,
organizei o lixo.
Orgânico aqui, inorgânico
ali.
Depois
fiz o asseio no viveiro
de Clarice,
troquei a água
do azulão Mallarmé,
pus a farinhada
no escaninho de cada
pintagol.
Fui à farmácia
comprar vitamina D,
dorfkex, estomazil,
xantinon, rivotril
e outros bálsamos
para o coração agoniado.
No sebo
adquiri 3 gramáticas
antigas,
uma seleta de poemas
fesceninos
(Aretino e Bocage).
Passei na rodoviária,
pedi uma passagem
só de ida
para a última cidade
do sertão.
Cachoeiras dos Índios,
Bom Jesus, Uriana,
São João do Rio do Peixe,
hoje, Antenor Navarro,
não sei.
Toda geografia
é loucura.
Antes do ônibus
encostar para o embarque,
bebi 4 conhaques.
De repente, tudo
escureceu.
Não sei se foi sonho
ou alucinação.
Só sei
que nunca viajei.
(Hbf.
Do livro inédito, Vou morrer escrevendo meus poemas)
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