
Atrás da porta havia sempre um país clandestino.
Na infância, era onde as vozes mudavam de roupa. Meu pai atravessava a sala com passos de homem definitivo, mas bastava fechar a porta do quarto para virar silêncio. Minha mãe escondia cansaços atrás da porta da cozinha, entre o cheiro do café e a fumaça do alho dourando na panela. Aprendi cedo que certas tristezas moram em pé, encostadas na madeira, esperando a casa dormir.
Em Exu, Arcoverde, ou até Fortaleza, as portas nunca fechavam completamente. Ficavam entreabertas como quem deseja escutar a vida do lado de fora. Entrava poeira, sanfona distante, notícia ruim, cheiro de chuva e conversa de vizinho. Porta fechada demais parecia soberba. O sertão desconfiava de mistério absoluto.
Depois vieram outras portas.
Atrás da porta do primeiro amor havia cartas que tremiam mais que as mãos. Retratos guardados dentro de livros. Perfumes sobrevivendo em roupas esquecidas. Toda paixão deixa atrás da porta uma pequena zona de desastre sentimental. Os romances acabam, mas continuam respirando em objetos inúteis.
Atrás da porta do banheiro morava a sinceridade humana. Nenhum império resiste muito tempo diante do espelho embaçado de madrugada. Presidentes, jornalistas, poetas e balconistas acabam iguais diante da própria olheira. O mundo inteiro cabe num rosto cansado iluminado por lâmpada fraca.
Mais tarde descobri os corredores dos hospitais. Atrás daquelas portas brancas existia um silêncio diferente, mais pesado que religião. Médicos aprendiam a linguagem das máquinas. Famílias negociavam esperança em voz baixa. E havia sempre alguém olhando a maçaneta como se dela dependesse o destino do universo.
Também existem portas políticas.
Atrás delas, homens engravatados fabricam discursos como quem fabrica salsicha: ninguém deveria assistir ao processo inteiro. Mudam palavras, trocam culpas, inventam patriotismos de ocasião. O planeta frequentemente desaba atrás de portas refrigeradas por ar-condicionado e cafezinho morno.
Mas as portas mais perigosas continuam sendo as da memória.
Basta um rangido e voltam vozes inteiras. Um rádio tocando Chico Buarque. Um lençol antigo secando no quintal. O barulho de chinelos atravessando a madrugada. A vida não desaparece; apenas muda de cômodo.
Hoje abro portas devagar.
Não por medo do que existe do outro lado, mas pelo excesso do que ainda permanece atrás delas.
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