João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

DA TELA AO PALCO

Por: | 05/06/2026

DA TELA AO PALCO

João Batista de Brito


Nesse fim de semana passado esteve em cartaz no Teatro Paulo Pontes a peça “Um dia muito especial”. Fui ver e gostei. Sala lotada e muita vibração.

Como talvez outros espectadores, tive um motivo particular para ir. Ocorre que a peça de Alexandre Reinecke “adapta” o filme homônimo do cineasta italiano Ettore Scola, (no original: “Una giornata particolare), filme de 1977 que simplesmente venero.

Como se sabe, no terreno da adaptação, o percurso comum é do palco à tela, e não, da tela ao palco.

Verdade é que o filme de Scola, ele mesmo, já tem uma estrutura meio teatral, uma vez que sua história decorre num mesmo dia, num cenário restrito, dois apartamentos vizinhos, num mesmo condomínio. Unidade de tempo e espaço. Por sinal, um dos grandes méritos do filme de Scola é, com toda essa restrição temporal/espacial, não parecer teatral.

A data é seis de maio de 1938, dia em que Hitler decidiu visitar Mussolini, em Roma. Enquanto a cidade toda celebra a visita com barulhenta ostentação, uma humilde dona de casa (Sofia Loren), mãe de seis filhos, esposa de um marido grosseiro e machista conhece o seu misterioso vizinho (Marcelo Mastroiani), um solitário radialista que acabara de ser demitido do emprego.

Entre favores, acasos e mal-entendidos, a amizade vai brotando, porém, esse relacionamento improvável não se dá sem passar, de parte a parte, por revelações surpreendentes e muitas dores. Para quem não conhece o filme, ou a peça, prefiro não adiantar spoilers.

A peça não trai o filme e, como ele, também nos conduz pela emoção ao mesmo impasse. Ardilosa, a direção soube aproveitar a suposta “teatralidade” da história para ganhar efeito.

Um exemplo legal é o artifício de dividir o espaço do palco para valer como os dois apartamentos, e não apenas um. Os efeitos sonoros e de iluminação contribuem para a aceitação dessa convenção, e fazem a peça andar com fluidez, esta reforçada pelas excelentes interpretações de Maria Casadevall, como a dona de casa confusa, e Reynaldo Gianecchini, como o vizinho desesperado.

A rigor, duas coisas são exatamente iguais no filme e na peça: as aberturas, com a exibição (em tela) de filmagens documentais da data histórica, como se fôssemos assistir a uma reportagem. Tanto assim que, quando as cortinas abrem, o espectador tem a impressão de estar no cinema. Está, mas só por uns quinze minutos.

Depois disso, começa o lado individual, privado, da história: um passarinho foge de uma gaiola, voa para o apartamento ao lado... E a narrativa prossegue, embora, em nenhum momento, a dona de casa e seu vizinho esqueçam as comemorações nazistas/fascistas lá fora. Aliás, nem eles, nem nós.

Filme e peça, ambos denunciam tudo aquilo que cabe na palavra “Fascismo”: patriotismo cego, desestímulo à sensibilidade, esmagamento da inteligência, machismo, misoginia, homofobia, etc.. E o fazem, não com pregação, mas de forma dramática e convincente.

Sobre essa questão ideológica, penso que não é muito difícil adivinhar de onde veio, no Brasil atual, a intenção de colocar na ribalta esta história de pessoas comuns esmagadas pelo fascismo. Aliás, intenção endossada pelo caloroso aplauso do público presente (teatro superlotado), no final do espetáculo. Mais ainda, quando o produtor mencionou o apoio financeiro da Lei Rouanet e os aplausos aumentaram.


FONTE: Facebook - Acesse

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