
Há alguns meses, durante uma consulta com um nutrólogo, ouvi uma recomendação que me pareceu estranha. Reduzir o consumo de leite e de glúten. Não porque fossem venenos, explicou ele, mas porque determinados organismos já não conseguem processá-los da mesma forma. O que para muitos continua sendo alimento, para outros se transforma em desconforto, inflamação e sofrimento silencioso.
Saí da consulta pensando mais na vida que na dieta.
Durante séculos, o leite foi símbolo de sustento. O pão, de partilha. Em torno deles, famílias se reuniram, povos se formaram, civilizações encontraram uma linguagem comum para celebrar a sobrevivência e a esperança.
Mas os tempos ensinaram que nem tudo o que alimenta a maioria alimenta a todos. Há organismos que recebem o leite como desconforto. Há corpos que encontram no glúten não energia, mas inflamação. O problema não está necessariamente no alimento. Está na incapacidade de assimilá-lo sem sofrimento.
Como nós, as sociedades também possuem suas intolerâncias.
Existem ideias que, em pequenas doses, podem até integrar o debate democrático. Mas, quando se transformam em obsessão coletiva, deixam de nutrir e passam a corroer.
A extrema-direita contemporânea parece ser uma dessas substâncias.
Chega revestida de modernidade. Circula por satélites, redes sociais, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial. Fala a linguagem do futuro enquanto carrega, no fundo da bagagem, velhos fantasmas.
Seu sonho não é propriamente novo. É antigo. Antigo como os tempos em que a autoridade dispensava o diálogo, a fé dispensava a dúvida e o poder dispensava qualquer forma de contestação.
Isso é medieval.
Não nas catedrais, que eram obras de arte e engenho humano, mas na intolerância. Na perseguição ao pensamento divergente. Na desconfiança diante da ciência. Na necessidade permanente de dividir o mundo entre fiéis e inimigos. Entre o bem e o mal.
A contradição beira a poética.
Utilizam-se as ferramentas mais sofisticadas já criadas pela inteligência humana para desacreditar a própria inteligência humana. Smartphones tornam-se tochas. Redes globais convertem-se em muralhas. Algoritmos passam a distribuir superstições em escala industrial.
Tudo parece novo.
Nada é realmente novo.
A embalagem é tecnológica; o conteúdo pertence a um passado que muitos imaginavam superado.
Como acontece com certas intolerâncias alimentares, os sintomas aparecem aos poucos. Primeiro surge a sensação de conforto produzida pelas respostas simples.
Depois vem a rejeição à complexidade. Em seguida, a necessidade de encontrar culpados. Por fim, instala-se a inflamação: do debate público, das instituições, da convivência entre diferentes.
A democracia, então, começa a perder sua capacidade de absorver nutrientes essenciais. A verdade torna-se indigesta. O conhecimento passa a ser visto com suspeita.
A ignorância, ao contrário, ganha aparência de autenticidade.
E assim sigo lembrando daquela consulta.
O nutrólogo falava do corpo, mas a história parecia falar das sociedades. Nem toda intolerância é visível de imediato. Algumas levam anos para se manifestar. Quando os sintomas finalmente aparecem, o organismo já está comprometido.
Talvez estejamos vivendo exatamente esse momento.
Uma parcela do mundo acredita estar construindo o amanhã enquanto restaura, peça por peça, velhos mecanismos de submissão. Como quem instala internet de alta velocidade num castelo cercado por fossos.
A tecnologia avança.
Mas uma parte do pensamento insiste em caminhar para trás.
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