Gonzaga em pleno palco
Francisco Gil Messias
gmessias@reitoria.ufpb.br
Fui ao lançamento do novo livro de Gonzaga Rodrigues como quem vai presenciar um momento histórico. E de fato era – e foi – um evento extraordinário, pois não é todo dia que se vê um nonagenário a publicar livro. Pode-se dizer então que o autor teve mais essa ventura na vida, uma vida longa, rica e consagrada. Para quem, ainda moço, chegou na capital com a cara e a coragem para abrir caminhos, não é pouca coisa, convenhamos. O menino de Alagoa Nova, filho de Seu Manuel Avelino e Dona Tonina, como um verdadeiro César, veio, viu e venceu.
O talento natural e o esforço autodidata, além da perseverança, claro, foram as ferramentas do cronista na conquista de seu espaço na aldeia. Um processo lento e progressivo que ele soube administrar com paciência, sem atropelar ninguém. Ainda moço, encontrou o jornalismo paraibano dominado, no bom sentido da palavra, por astros como José Leal, Virgínius da Gama e Melo, Juarez Batista e Carlos Romero, para citar apenas alguns. Como se aproximar desses gigantes, deve ter se perguntado naqueles difíceis começos. Sem padrinhos políticos e sem o trampolim da academia universitária, como desbravar a densa floresta da intelectualidade e das letras tabajaras?
Mas aos poucos o alagoanovense tímido foi conquistando cadeiras nas redações pessoenses e aos poucos foi firmando seu nome nos jornais locais. De fato, sabia escrever e possuía um estilo todo seu, requisitos básicos no jornalismo e na literatura. E mais: não era apenas um diletante, mas alguém que vivia exclusivamente, com dedicação total, do que escrevia. Um profissional, em suma. E isso fez diferença. Se a escrita era o seu ganha-pão, não podia se dar ao luxo de não ser bom e de não procurar ser ótimo.
Estabelecido o cronista, o passo seguinte teria que ser a literatura, através da publicação de livros, sabedor que era do prestígio que só os autores publicados conquistam. Principalmente na província. E as coletâneas de crônicas foram se sucedendo, até alcançarem as alturas de seu memorável Retrato de memória, em que, numa das melhores prosas já vistas na aldeia, traça o amoroso perfil de seu pai, numa comovente tentativa de expressar literariamente gratidão e amor filiais. Nesse percurso, foi acolhido na Academia Paraibana de Letras, que chegou a presidir, coroando assim uma carreira vitoriosa, credora da admiração e do respeito dos paraibanos.
Quis o destino que o rapazinho que aportou sozinho na Praça Pedro Américo se tornasse o atual decano entre seus pares de labor jornalístico e literário. Sua ascendência é reconhecida – e não se deve apenas à longeva idade. Nele, o mérito e a tradição andam de mãos dadas, de tal modo que o reconhecido idoso, por si só, não prevalece sobre o fino escriba, este sim, merecedor de todas as honras, aquém e além de tudo.
Nesse livro mais recente, quis Gonzaga resgatar José Maria dos Santos, autor paraibano quase que inteiramente esquecido na atualidade. E essa é mais uma contribuição sua à cultura estadual. Na realidade, trata-se de uma reedição de obra originalmente publicada no ano 2000, agora revisada e acrescida de alguns apêndices. Ressalto o notável prefácio à edição original da lavra do professor Tarcísio Burity, o qual, por si só, dá-nos uma suficiente ideia da relevância intelectual do historiador e ensaísta resgatado.
Para quem não sabe (eu não sabia), José Maria dos Santos, falecido em 1954, aos 77 anos, foi um jornalista, historiador e escritor paraibano, nascido em João Pessoa e que atuou no Rio de Janeiro e até em Paris, vejam só. Escreveu um livro importante: A política geral do Brasil, de 1930, traduzido para o inglês. Era negro e tal fato, dado o racismo da época, teria contribuído para uma certa “invisibilidade” do autor. Essa contingência, segundo Raul Pila, explicaria, pelo menos em parte, a “modéstia desconfiada” de José Maria diante “dos homens e das coisas de seu país”. E essa mesma modéstia foi a que, penso eu, também deve ter acometido o nosso decano ao se deparar com as sumidades aldeãs quando de sua chegada à capital paraibana. Talvez essa afinidade de experiências e de sentimentos seja uma das causas do justo resgate feito por Gonzaga desse irmão de dificuldades que certo dia, já longínquo, descobriu numa antologia de contos organizada por Graciliano Ramos.
A manhã de autógrafos de Gonzaga, na Livraria do Luiz do MAG, foi consagradora. O historiador Flávio Ramalho de Brito fez uma ótima apresentação. E numerosa plateia ovacionou de pé o autor, que se emocionou, emocionando os presentes.
Se vale a pena conhecer José Maria dos Santos, coestaduano que nos orgulha, mais ainda vale homenagear Gonzaga Rodrigues, agora nossa sumidade maior, cuja glória absoluta, hoje, é que provoca “modéstia desconfiada” em todos nós.
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