
Nas antigas viagens, havia sempre alguém destinado a ficar.
A embarcação chegava a uma costa desconhecida, recolhia informações, observava os ventos, examinava a paisagem. Depois partia.
Nem todos partiam com ela.
Alguém permanecia na praia, diminuindo aos poucos até desaparecer no horizonte, enquanto as velas retomavam seu caminho.
Fico a imaginar a solidão daquele homem..
Os primeiros dias entre vozes incompreensíveis. A estranheza das árvores. O hábito de olhar para o mar, procurando um ponto branco que talvez nunca voltasse.
Mas o tempo tem maneiras curiosas de trabalhar.
Aquilo que parecia abandono acabava se transformando em ``permanência``. O estrangeiro aprendia nomes. Descobria caminhos. Reconhecia os ciclos da chuva e do sol. Aos poucos, deixava de ser visitante.
Passava a pertencer, ainda que de forma imperfeita.
Ocorre algo semelhante em certas regiões da memória. Nem tudo segue viagem.
Algumas coisas ficam.
Uma tarde.
Um rosto.
Uma palavra escutada por acaso.
Um medo antigo.
Uma alegria que não encontrou explicação.
Enquanto os anos avançam, acreditamos ter deixado tudo para trás. A vida acumula novas rotas, novos mapas, novos portos.
Mas certas presenças permanecem onde as deixamos.
Silenciosas.
Habitando uma margem discreta do tempo.
E, quando menos se espera, reaparecem.
Não como visitantes.
Como moradores.
Reconhecem atalhos que esquecemos. Sabem o nome de emoções que já não sabemos nomear. Movem-se com familiaridade por lugares que julgávamos abandonados.
Talvez nunca tenham sido abandonados. Talvez apenas tenham ficado.
Hoje penso que toda vida possui suas terras conhecidas e suas pequenas colônias invisíveis.
Lugares onde alguma parte nossa continua vivendo, mesmo quando seguimos adiante.
E às vezes, ao olhar para trás, não sabemos ao certo quem foi deixado na praia.
Ou quem realmente partiu.
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