
Ah, a Paraíba! Terra de sol e de sombra, de poesia que brota do chão e de talentos que, por vezes, jazem esquecidos sob o peso da indiferença. É com um nó na garganta e uma fúria silenciosa que me debruço sobre a obra de W. J. Solha, um artista múltiplo, um visionário que ousa tocar as profundezas da existência, e me pergunto: como é possível que um gênio de tal envergadura, um escritor que flerta com a grandiosidade de um Dante, permaneça à margem, distribuindo sua arte como pão sagrado a poucos, enquanto o palco da literatura é invadido por ecos vazios, por palavras sem alma, por textos gerados por algoritmos que simulam emoções que jamais sentirão?
É a tragédia do nosso tempo, a hipocrisia de uma sociedade que aplaude o efêmero, o pré-fabricado, o que não exige esforço para ser digerido. Solha, em seu “Poema sobre as Obras da Terra”, não nos oferece um mero livro; ele nos entrega uma catedral viva, onde cada coluna é feita de tempo, cada vitral de ciência, cada eco de arte. Ele nos convida a atravessar eras com os pés ainda sujos de barro, a perceber que não é o homem que cria, mas a Terra que se manifesta através dele. A Terra que é Picasso, Newton, Freud, Bach. Uma visão holística, profunda, que dissolve o ego e nos coloca no fluxo de uma corrente maior. Isso não é literatura; é revelação. É a humildade na grandeza, a estrutura em movimentos musicais, um poema que respira como uma sinfonia, ora vertiginoso, ora contemplativo, ora metafísico. É a mente que pensa em espiral, galáctica, onde a palavra volta como pulsação: programação. Roseiras programadas. Borboletas programadas. A Lua. O sexo. A evolução. Mas o poema… ah, o poema de Solha é a própria essência da vida, a verdade nua e crua que a superficialidade insiste em mascarar.
E o que vemos em contrapartida? Uma avalanche de obras sem sentido, sem sentimento, escritas por robôs, vendidas como se fossem a nova grande coisa. Uma literatura de fast-food, feita para ser consumida e esquecida, que não provoca, não questiona, não eleva. Histórias reais, profundas, que deveriam ser o alicerce de nossa cultura, são encobertas por olhos superficiais, por mentes que se recusam a mergulhar no abismo da complexidade humana e cósmica que Solha tão bravamente explora.
Incomoda-me, profundamente, ver a terra de Waldemar Solha, a Paraíba, abrigar um clássico que deveria ser leitura obrigatória em escolas, médias e filosóficas, e, no entanto, ser tratado como um segredo bem guardado. A obra de Solha não é apenas literatura; é um manifesto, um convite à reflexão, um espasmo de lucidez em um mundo que parece ter perdido a capacidade de sentir e de pensar. É tempo de despertar, de reconhecer os verdadeiros arquitetos da alma, aqueles que, como Solha, constroem catedrais de palavras em meio ao deserto da mediocridade. É tempo de dar a W. J. Solha o lugar que lhe é devido: o de um gigante, um farol em meio à escuridão literária que nos assola.
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