
Para quem acompanhou desde o início aquilo que Moscovo designou como “operação militar especial”, torna-se difícil não perceber como a ideia inicial de uma guerra baseada na força bruta dos carros blindados rapidamente entrou em choque com uma realidade completamente diferente no terreno. A Rússia entrou no conflito com um enorme parque de blindados, frequentemente apontado como superior a catorze mil unidades no total, embora grande parte desse número corresponda a veículos armazenados durante décadas, provenientes sobretudo da herança soviética e não a forças prontas e modernas em serviço ativo.
O que aconteceu a partir de 2023 marcou uma mudança decisiva na forma como essa massa de blindados podia, ou não podia, ser utilizada. A introdução massiva e sistemática de drones no campo de batalha alterou profundamente a lógica do combate terrestre. Não apenas drones de reconhecimento, mas sobretudo os drones FPV, baratos, precisos e produzidos em grande escala, capazes de atingir veículos blindados, posições de artilharia e até soldados individuais com uma eficácia inesperada. A partir desse momento, o campo de batalha deixou de ser um espaço onde a blindagem e o calibre eram suficientes para garantir superioridade e passou a ser um ambiente de vigilância permanente, onde praticamente qualquer movimento pode ser detetado e atacado com rapidez.
Hoje, na guerra moderna, o drone FPV tornou-se um dos elementos centrais do domínio do terreno. Com custos de produção que podem rondar apenas algumas centenas de euros, consegue destruir sistemas militares avaliados em milhões, criando uma assimetria que nenhuma doutrina clássica previa de forma tão intensa. Esta realidade não é exclusiva da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, embora aí tenha atingido uma escala industrial. Outros conflitos recentes têm vindo a incorporar estas mesmas tecnologias, desde o Médio Oriente até diferentes teatros de operações, mostrando que esta não é uma exceção, mas sim uma tendência.
É neste contexto que muitas das narrativas simplificadas sobre números de tanques devem ser lidas com prudência. Não é apenas uma questão de quantos existem, mas de quantos estão operacionais, quantos podem ser recuperados e quantos podem realmente sobreviver num ambiente saturado por drones e guerra eletrónica. A Rússia, tal como a Ucrânia, viu vários milhares de veículos blindados destruídos, danificados ou abandonados ao longo do conflito, obrigando à utilização intensiva de reservas antigas, incluindo modelos soviéticos que estavam há décadas em armazenamento.
Perante essa realidade, a resposta industrial passou inevitavelmente por duas vias. Por um lado, a produção de novos modelos mais modernos, como o T-90, numa cadência estimada na ordem de algumas centenas por ano, ainda longe de compensar integralmente as perdas. Por outro lado, a reativação e modernização de veículos antigos, adaptando-os à nova realidade do campo de batalha. E essa adaptação passou, de forma cada vez mais evidente, pela integração de sistemas anti-drone, desde estruturas externas improvisadas, as chamadas “caixas” ou grelhas de proteção, até sistemas eletrónicos de interferência e proteção ativa.
Mas talvez a mudança mais importante não esteja apenas nos tanques, mas na própria lógica da guerra. O que se observa é uma transição de uma guerra centrada na força bruta e no volume de blindados para uma guerra dominada por sistemas baratos, distribuídos e tecnologicamente inteligentes. Nesse sentido, o problema não é apenas substituir tanques perdidos, mas redefinir o papel do próprio tanque num ambiente onde a ameaça não vem apenas do inimigo visível, mas de um sistema contínuo de deteção e ataque remoto.
Ainda assim, o tanque não desaparece. Ele transforma-se. E é aqui que surge a ideia do tanque do futuro, que já não pode ser entendido como um veículo isolado, mas como um nó dentro de um sistema de combate integrado. Um sistema onde drones próprios fornecem vigilância constante, onde a artilharia é guiada em tempo real por sensores avançados, e onde a guerra eletrónica funciona como um escudo invisível em torno das unidades blindadas.
A estrutura desses veículos também terá de evoluir. As torres tripuladas tendem a dar lugar a sistemas não tripulados, reduzindo a exposição da tripulação, que passa a estar protegida numa cápsula blindada no interior do casco. O perfil do veículo será mais baixo, mais modular e mais adaptado à redução da assinatura térmica e visual. A defesa deixará de ser essencialmente passiva e passará a ser ativa e automatizada, combinando sensores, bloqueadores eletrónicos e sistemas de interceptação capazes de reagir em segundos a ameaças múltiplas.
Num cenário mais avançado, estes sistemas poderão incluir capacidades de neutralização de drones através de meios de energia dirigida, como lasers ou micro-ondas, ainda em desenvolvimento, mas já integrados em vários programas experimentais. O objetivo deixa de ser apenas resistir ao impacto e passa a ser impedir que o impacto aconteça.
E é precisamente aqui que se coloca a questão mais ampla. Este caminho está a ser seguido não apenas pela Federação Russa, mas também pela NATO, pela Europa, pelos Estados Unidos e por outras potências militares. Todos estão a ser forçados a adaptar doutrinas, equipamentos e estratégias a esta nova realidade. A diferença é que alguns estão a fazê-lo em guerra real, sob pressão imediata, enquanto outros o fazem em ambiente de planeamento e simulação.
No entanto, no meio desta evolução tecnológica acelerada, permanece uma conclusão inevitável. Seria desejável que todo este esforço humano, industrial e científico estivesse orientado para fins civis, para infraestrutura, saúde, educação e desenvolvimento. Mas o mundo real, tal como se apresenta hoje, continua a empurrar estas sociedades para a lógica da guerra, onde a inovação mais rápida muitas vezes nasce da necessidade de sobreviver.
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