
A Europa aprovou seu ICE. E comemorou. Não com fogos, mas com o silêncio cúmplice de quem assina um papel e lava as mãos. A nova lei é uma engrenagem: detém, busca, prende, deporta. Crianças incluídas. Famílias inteiras viram número, viram caso, viram alvo. Dois anos de detenção antes de qualquer julgamento porque, afinal, quem espera por justiça que espere na jaula.
E o espetáculo está montado. A extrema direita não inventou o medo, apenas o embalou com bandeiras e discursos bem ensaiados. Mas o que dói na alma é ver os supostos liberais, aqueles que juraram pela liberdade individual, aplaudindo de pé. A liberdade, para eles, sempre foi seletiva: branca, europeia, patrimonial. O migrante é a exceção que confirma a regra a regra de que o Estado pode tudo contra quem não tem voz.
A Europa, que se pinta de berço dos direitos humanos, agora copia a cartilha americana do ICE com um sorriso amarelo. Trata-se de uma inversão trágica: o velho continente, que um dia acolheu exilados da guerra, agora constrói campos fora de suas fronteiras para que a sujeira não manche seus jardins. Campos de expulsão chamemos pelo nome, não por eufemismos. É a geografia do descarte: lá, onde o olhar não alcança, a consciência descansa.
Mas a história não é ingênua. Ela sussurra que regimes de exceção sempre começam com o outro o estrangeiro, o pobre, o diferente. E quando a máquina está azeitada, ninguém pergunta para quem ela vai funcionar depois. O fascismo não chega com botas e tochas; ele se insinua no parlamento, com votos e comendas, disfarçado de segurança. E a cumplicidade dos moderados é a gasolina que o faz rodar.
O que sobra, então? Sobra a pergunta que a filosofia insiste em fazer: o que faz de um ser humano um ser humano? Se a resposta for "a capacidade de sentir o outro", estamos falidos. Porque a Europa, hoje, prefere a eficiência à compaixão. Prefere a deportação em massa ao abraço. Prefere o espetáculo do medo à silenciosa revolução do acolhimento.
E enquanto a máquina ronca, resta a nós, os que ainda estranham, lembrar que toda engrenagem já foi inventada por mãos humanas e pode ser desmontada pelas mesmas mãos. Mas para isso, é preciso parar de aplaudir. É preciso olhar para o campo, para a criança, para a família, e ver não um problema logístico, mas um espelho. Porque, no fundo, o que estão deportando é a nossa própria humanidade. E ela não tem passaporte.
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