Gerson Brito
Gerson Brito
Gerson Brito

A MARCHA DOS TRIUNFANTES SEM-NOÇÃO


Por: | 18/06/2026


   ​Vivemos a era da audácia dos medíocres. Houve um tempo — um tempo lírico, quase bíblico — em que o sujeito, ao se perceber portador de uma burrice galopante, recolhia-se à sua insignificância. Enfiava-se na última cadeira da mesa de bar, pedia uma média com pão na chapa e ouvia os doutores. Havia pudor. Havia o benefício da dúvida.

​Hoje? Hoje o idiota perdeu o pudor, a compostura e, acima de tudo, a modéstia.

   ​O imbecil contemporâneo não apenas desconhece o próprio ridículo, como o filma em alta definição, bota filtro e posta com orgulho. A burrice foi promovida a "ponto de vista legítimo". O sujeito ostenta a ignorância como se fosse uma medalha no peito, bradando heresias científicas, históricas e humanas com a empáfia de quem descobriu a pólvora.

​E, claro, no topo desse bolo de estrume, brilha o nosso mais tradicional e intocável patrimônio: o complexo de vira-latas.

  ​O vira-latismo nacional mudou de patamar. Antes, era uma melancolia mansa, um suspiro de quem se achava menor diante do mundo. Agora, ele é desabrito, agressivo, orgulhoso. O brasileiro médio cospe no próprio chão com um prazer quase erótico, enquanto aplaude, de joelhos, qualquer mediocridade que venha carimbada em inglês ou que ostente uma bandeira estrangeira. É o preconceito contra si mesmo, elevado à categoria de virtude intelectual.

​   O preconceito, que outrora andava de cabeça baixa pelos cantos escuros, agora desfila em carro aberto. O idiota não tem mais vergonha de ser cruel; ele tem nojo do espelho. Odeia o vizinho, odeia o sotaque da outra região, odeia o próprio sangue que lhe corre nas veias, enquanto jura que pertence a uma elite europeia que nem no mapa saberia apontar onde fica o Brasil.

​O drama do nosso tempo é que os sábios estão cheios de dúvidas, enquanto os idiotas estão absolutamente cheios de certezas. E de microfones.

​Os idiotas perderam a modéstia e ganharam wi-fi. Que Deus tenha misericórdia de nós, porque a inteligência já bateu em retirada há muito tempo.




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