FUTEBOL NO TEMPO DE SHAKESPEARE
(Texto já postado, mas que talvez interesse rever)
João Batista de Brito
Nessa época de Copa do Mundo eu, que nem curto futebol, lembro uma cena engraçada num filme butanês - sim, daquele país asiático miudinho, chamado Butão. Intitulado “A copa” e com fundo documental, o filme contava a história de como os monges budistas tentam convencer o Dalai Lama a alugar um aparelho de televisão para assistirem aos jogos da copa de 1998.
O Santo Homem pergunta: “E o que é futebol?” E ouve dos monges que é uma luta entre dois países por causa de uma bola. Admirado, o Santo Homem indaga se há sexo no futebol, e ouve que não; indaga então se há violência, e ouve que eventualmente, mas quando acontece é punida. Convencido, o Dalai Lama consente e, pela primeira vez na história do país, os monges podem assistir a jogos de futebol.
Lembrei o filme butanês por causa da referência à violência. Lembrança que me conduziu a minhas leituras shakespearianas. Foi assim:
Meado dos anos setenta eu estava, pela primeira vez, lendo o “Rei Lear” (1605) de Shakespeare quando me deparei com o que menos esperava: sim, futebol.
Futebol no século XVI? Como podia? Li e reli o trecho para me certificar. Não havia dúvidas, até porque a versão da peça que eu lia era em língua original, e o termo era aquele mesmo: football. E vejam que a história de Lear antecede de muito a redação e encenação da peça.
O trecho que eu lia era uma daquelas cenas violentas da peça em que o personagem de Kent insultava Oswald, o empregado de Goneril, uma das filhas do rei. E o fazia com uma série de palavras grosseiras – uma longa lista de termos baixos, ofensivos, e no fim da linha, o mais ofensivo de todos era: “seu jogador de futebol!”.
Com o mesmo sentido de jogo sujo e baixo, mais tarde achei uma outra referência ao futebol em Shakespeare, agora em “A comédia dos erros” (1591), quando o servente Drômio reclama de seus patrões por estar sendo tratado com desdém e maus tratos, inferiorizado como se fosse ele “um vil jogador de futebol”.
Como todo mundo, eu achava que o futebol fosse uma distinta e sofisticada invenção inglesa do século XIX.
Fui pesquisar e descobri que, de fato, os ingleses haviam inventado as regras do futebol no século XIX, mas só as regras, pois o jogo mesmo existia havia muito tempo – praticamente desde a Idade Média – e sem regra nenhuma.
No tempo de Shakespeare era um jogo grosseiro, baixo, extremamente violento e mesmo sanguinário.
Era disputado entre as aldeias e a prática era derrubar, ou se fosse o caso, aniquilar os adversários, a todo custo. A bola era feita da bexiga do porco e para metê-la na trave do adversário valia tudo, soco, puxão, empurrão, pontapé, tapa, espancamento, o que desse e viesse. Como não havia limite para o número de jogadores, podiam participar grupos enormes de pessoas, em alguns casos, multidões que se digladiavam, e era comum que tudo terminasse em muito sangue e até mortes.
Segundo registros da época, o futebol matava mais que os duelos, ou as lutas livres, ou a prática do arco e flecha. Sua grosseria, baixeza e sanguinolência só eram comparadas ao “bear bating”, aquele esporte horrendo em que, em praça pública, uma multidão munida de ferrões pontiagudos, se divertia, às gargalhadas, espetando um urso até a morte.
Ao longo dos séculos houve, no Reino Unido, várias sugestões parlamentares para a extinção desse jogo horrendo e infame. Até que lá pelos meados de século XIX, as autoridades britânicas encontraram uma solução para a questão: criaram e aprovaram por lei as rigorosas regras do jogo que conhecemos até hoje, jogo que, ironicamente, se tornou, como se sabe, o mais belo, o mais elegante e o mais amado dos esportes, lá e no mundo inteiro.
Tudo bem, às vezes, em campo e/ou fora de campo, ocorrem pancadarias e agressões, mas nada que se compare à ferocidade e sanguinolência que Shakespeare conheceu.
De modo que, final do século passado, já pôde o Dalai Lama assistir pela tv, a um inteiro campeonato mundial de futebol... sem risco de perder sua pureza de espírito.
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