Aloísio Lobo
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Aloísio Lobo

OS HERDEIROS DE ALCEBÍADES


Por: | 22/06/2026


    Os gregos conheceram um homem chamado Alcebíades. Quando a cidade o aplaudia, era ateniense. Quando a cidade o contrariava, tornava-se espartano. Se Esparta deixava de lhe servir, buscava abrigo entre os persas.

Sua pátria mudava conforme a direção do vento e a temperatura dos aplausos.

  Os séculos passaram, as túnicas viraram ternos, os escudos transformaram-se em redes sociais, mas a política continua produzindo seus especialistas em trocar de bandeira sem trocar de discurso.

   No Brasil, há um clã que ergueu a palavra "pátria" como um estandarte permanente. A pátria acima de tudo. A frase ecoou em comícios, camisetas, adesivos e discursos inflamados. Mas bastou que as instituições passassem a cobrar explicações para que a pátria começasse a parecer um lugar menos confortável.

   Vieram então os pedidos de socorro ao exterior, as denúncias contra o próprio país em fóruns internacionais, as tentativas de transformar tribunais nacionais em vilões globais. O Brasil, que antes era apresentado como vítima de forças estrangeiras, passou a ser retratado por seus antigos defensores como uma terra quase irreconhecível.

Os antigos gregos conheciam bem esse roteiro.

Alcebíades também dizia amar Atenas. O problema era que amava mais a si mesmo.

   No noticiário contemporâneo, a semelhança surge como uma sombra. Não porque existam exércitos espartanos às portas da cidade ou sátrapas persas distribuindo favores, mas porque permanece a mesma tentação de confundir interesse privado com interesse nacional.

Quando a sorte sorri, fala-se em patriotismo. Quando ela se afasta, procura-se um novo palco, uma nova plateia, um novo protetor.

As páginas dos jornais registram fatos. Os cronistas observam símbolos.

   E o símbolo que emerge é antigo: homens que vestem a bandeira como uma capa de super-herói, mas a deixam cair ao primeiro sinal de perigo. Juram fidelidade à cidade enquanto a cidade os serve. Quando ela exige responsabilidades, passam a tratá-la como inimiga.

Os gregos aprenderam, com atraso e sofrimento, que nenhum líder é maior que a pólis.

As democracias modernas continuam tentando aprender a mesma lição.

Enquanto isso, Alcebíades sorri do fundo dos livros de História. Não porque tenha vencido. Nem porque tenha sido absolvido.

Sorri porque descobriu, há mais de dois mil anos, que certos personagens envelhecem muito bem.

Ainda que se troque as sandálias pelos algoritmos, a ambição continuará exatamente a mesma.




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