João Gomes
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O POPULISMO VENCE NA COLÔMBIA POR UMA MARGEM DE 0,96%


Por: | 23/06/2026


   A democracia tem destas ironias. Por vezes, o rumo político de uma nação de mais de cinquenta milhões de habitantes acaba decidido por uma margem tão estreita que caberia confortavelmente dentro da população de uma cidade média. Foi isso que aconteceu na Colômbia.

    Nas eleições presidenciais de 2026, o candidato populista - apoiado por Trump - Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno com cerca de 49,66% dos votos, contra 48,70% obtidos por Iván Cepeda -candidato democrata. A diferença final foi de aproximadamente 250 mil votos, correspondente a apenas 0,96 pontos percentuais.

 Vista isoladamente, a diferença parece significativa. Mas os números ganham outra dimensão quando observados no contexto do universo eleitoral colombiano. Cerca de 41 milhões de cidadãos encontravam-se inscritos para votar. Destes, aproximadamente 26 milhões exerceram efetivamente o seu direito de voto, produzindo uma taxa de participação próxima dos 64%. Isto significa que quase 15 milhões de eleitores optaram pela abstenção.

  A conclusão é simples e inevitável: o resultado final foi determinado por uma fração muito reduzida do eleitorado total. Bastaria que uma pequena parcela dos abstencionistas tivesse decidido participar, ou que uma reduzida quantidade de eleitores tivesse alterado o sentido do seu voto, para que o desfecho político pudesse ser completamente diferente. É esta a verdadeira lição da eleição colombiana.

   Muito se discutirá sobre o vencedor, sobre o crescimento do discurso populista, sobre as promessas de segurança, autoridade e combate às elites tradicionais que marcaram a campanha. Muito se escreverá sobre o desgaste do governo cessante e sobre a polarização que atravessa atualmente a sociedade colombiana. Mas há um dado que permanece acima de todos os outros: nenhum projeto político triunfa sozinho. Triunfa porque os seus apoiantes comparecem.

  Na realidade, a diferença entre um país orientado por uma visão política e um país orientado pela visão oposta pode residir em menos de um por cento dos votos expressos. Quando isso acontece, a abstenção deixa de ser uma posição neutra. Passa a ser um fator político com consequências concretas.

    Cada cidadão que decide não votar está, consciente ou inconscientemente, a entregar aos outros a responsabilidade de definir o rumo coletivo. E quando uma eleição se decide por menos de um ponto percentual, percebe-se que milhares de pessoas que ficaram em casa poderiam ter alterado não apenas o resultado eleitoral, mas todo o enquadramento ideológico do país para os próximos anos.

     A democracia não é apenas o direito de votar. É também a responsabilidade de compreender que, por vezes, menos de um por cento separa dois modelos completamente diferentes de sociedade.

    E esta pode ser uma lição para todos os portugueses: os que ficam em casa e não vão votar e os que ainda entendem que o populismo lhes trará alguma alteração real ás suas vidas atuais.




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