João Gomes
João Gomes
João Gomes

BREVE HISTÓRIA DE UM SANTO QUE PERDEU A CABEÇA


Por: | 24/06/2026


    Entre todas as figuras que rodearam os primeiros passos do Cristianismo, poucas são tão marcantes quanto São João Batista. Considerado o mais próximo de Cristo, não apenas pelo vínculo espiritual, mas também pelos laços de sangue que os uniam, foi ele quem preparou o caminho para a sua missão e quem o batizou nas águas do rio Jordão.

   Filho de Isabel e Zacarias, João nasceu na Judeia, por volta do ano 2 a.C., numa época de inquietação e esperança. Desde cedo escolheu uma vida de simplicidade radical. Vestia-se com austeridade, habitava regiões desertas e percorria aldeias e caminhos poeirentos anunciando uma mensagem de arrependimento, renovação e justiça. A sua palavra era firme, desprovida de temor ou conveniência, e a autenticidade da sua vida atraía multidões que procuravam, nas águas do batismo, um sinal de mudança interior.

Mas os homens que falam a verdade raramente agradam aos poderosos.

  João denunciou publicamente o relacionamento entre Herodes Antipas e Herodíades, esposa do seu próprio irmão, considerando-o contrário à lei moral que defendia. A sua coragem teve um preço elevado. Herodes mandou prendê-lo, mas hesitava em condená-lo, receando a influência que o profeta exercia sobre o povo.

   O desfecho chegou durante um banquete oferecido para celebrar o aniversário do governante. Entre a música, o vinho e os aplausos dos convidados, a filha de Herodíades - identificada pela tradição como Salomé - executou uma dança que deslumbrou a corte. Encantado, Herodes jurou conceder-lhe qualquer pedido que formulasse.

  A jovem procurou então o conselho da mãe. E foi dessa consulta que nasceu um dos pedidos mais sombrios da história bíblica: a cabeça de João Batista numa bandeja.

Preso à sua promessa e à pressão dos convivas, Herodes ordenou a execução imediata. Assim morreu João Batista, vítima não de um crime, mas da sua fidelidade à verdade.

   Perdeu a cabeça, é certo. Mas ganhou algo que nem os reis, nem os tiranos, nem o tempo conseguem conquistar: a eternidade da memória. Dois mil anos depois, a sua voz continua a ecoar como símbolo de coragem, integridade e compromisso com aquilo em que se acredita.

Nota: Já eu, não sendo santo, tenho ainda a cabeça no sitio.


Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário