
Durante os últimos vinte e sete mil setecentos e quarenta dias, recebi a influência silenciosa dos astros que acompanham a Terra e completei setenta e seis viagens em redor do Sol. Vi as luas nascerem e desaparecerem, as marés obedecerem ao seu eterno chamamento, as tecnologias transformarem o quotidiano e o clima alterar a paisagem do mundo que me rodeia. Foi uma viagem extraordinária, percorrida com os sentidos despertos e a curiosidade intacta perante a vida.
Nasci, cresci, amei. Conheci a dureza dos infernos da guerra e aprendi que o ser humano possui uma capacidade admirável para renascer e reencontrar a liberdade. Cada etapa deixou marcas, algumas visíveis, outras guardadas no silêncio da memória, mas todas contribuíram para construir quem sou.
Agora, encontro-me diante da fase da existência que muitos consideram a mais difícil: aprender a conviver com a passagem do tempo. Assistir à lenta diminuição das forças, à fragilidade crescente da memória e às consequências inevitáveis dos excessos, das imprudências e das paixões da juventude. Mas a verdade é que o tempo leva algumas coisas e oferece outras. Traz experiência, serenidade e uma compreensão mais profunda do que realmente importa.
Quando olho para o espelho, continuo a reconhecer o mesmo homem. Talvez com mais rugas, talvez com menos ilusões, mas com a mesma esperança no futuro, a mesma vontade de viver e a mesma disponibilidade para enfrentar os desafios que cada novo dia apresenta.
Para ser sincero, raramente penso na idade. Não me detenho nas dores que possam surgir amanhã nem nas incógnitas que o universo ainda reserva para mim. Prefiro concentrar-me no que posso fazer hoje: procurar ser um pouco melhor do que fui ontem, aprender mais um pouco, errar menos e agradecer mais.
Acima de tudo, agradeço às pessoas que caminham ao meu lado. Aos que me amam, por me permitirem receber o seu amor e retribuí-lo da melhor forma que sei. Aos que me compreendem. Aos que se esforçam por compreender-me. E também aos que não me compreendem totalmente, mas que, apesar disso, não desistem de mim. Esses também fazem parte da minha história e merecem a minha gratidão.
Se alguma lição estes setenta e seis anos me ensinaram, é que a vida não se mede pelo número de voltas dadas ao Sol, mas pela capacidade de continuar a maravilhar-nos com cada amanhecer, de manter a esperança acesa e de nunca desistir de crescer enquanto houver caminho para percorrer.
A todos os que aqui vem os meus obrigados, agradecimentos, os meus gostos e - também e por vezes - os meus desgostos, por não compreenderem algumas vezes o sentido do que digo.
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