
As guerras modernas raramente se resumem ao confronto direto entre soldados e tanques. Muitas vezes, a batalha decisiva trava-se nos bastidores: na energia, nos abastecimentos e na capacidade de manter homens e equipamentos em movimento.
Ao longo dos últimos meses, tem-se tornado cada vez mais evidente uma mudança na estratégia ucraniana. Enquanto as forças russas continuam a realizar avanços territoriais lentos, condicionados e frequentemente medidos em poucos quilómetros, a Ucrânia parece ter deslocado uma parte importante do seu esforço militar para ataques de longo alcance contra infraestruturas logísticas russas, nomeadamente depósitos de combustível, refinarias, postos de abastecimento e pontes.
Esta opção não surge por acaso. Desde o fracasso da grande contraofensiva de 2023 e perante uma crescente escassez de efetivos, de munições e de capacidade industrial própria, Kiev viu-se confrontada com um problema estratégico de enorme dimensão: como travar um adversário maior, mais populoso, energeticamente autossuficiente e com uma capacidade produtiva significativamente superior.
Neste contexto, atacar o combustível do adversário parece uma solução lógica. Um exército moderno consome quantidades gigantescas de combustível. Sem gasóleo e gasolina não há transporte de tropas, não há movimentação de blindados, não há abastecimentos nem logística operacional eficiente.
Todavia, a questão central é saber se esta estratégia pode produzir resultados decisivos. A Rússia dispõe de uma profundidade estratégica difícil de igualar. É um dos maiores produtores mundiais de petróleo, possui dezenas de refinarias e uma vasta rede de oleodutos e caminhos de ferro. Mesmo sofrendo danos localizados, tem uma capacidade considerável de redistribuir recursos e compensar perdas.
A Crimeia oferece um exemplo interessante. Os ataques ucranianos já provocaram problemas de abastecimento e restrições temporárias em diversas estações de serviço. Ainda assim, a Rússia continua a dispor de alternativas logísticas que permitem mitigar, embora não eliminar, os efeitos dessas perturbações.
A situação ucraniana apresenta características distintas. Antes da guerra, a Ucrânia possuía milhares de postos de combustível espalhados pelo território nacional, incluindo uma parte substancial nas regiões orientais e meridionais. Hoje, muitos desses postos foram destruídos, encerrados ou operam de forma intermitente. Os ataques diários a depósitos, infraestruturas energéticas e centros logísticos suscitam naturalmente preocupações quanto à sustentabilidade do abastecimento em determinadas regiões.
Não existem números exatos e atualizados sobre quantos postos permanecem operacionais a leste do rio Dnipro. Contudo, as estimativas apontam para uma redução significativa da rede anteriormente existente. Em algumas zonas próximas da frente de combate, o abastecimento tornou-se esporádico e dependente de cadeias logísticas extremamente vulneráveis.
A Ucrânia não está - ainda - à beira de um colapso imediato. O exército dispõe de autotanques, depósitos militares dispersos e prioridades próprias de abastecimento. Além disso, o país continua a importar grandes quantidades de combustíveis da União Europeia. Mas significa que existe uma assimetria de desgaste.
Numa guerra prolongada de destruição sistemática de infraestruturas energéticas, o país mais dependente de importações e com menor capacidade de produção própria tende a sentir primeiro os efeitos da pressão.
Paralelamente, os militares russos continuam a avançar no terreno. Os ganhos territoriais são geralmente lentos, por vezes de apenas alguns quilómetros. Ainda assim, a tendência observada por muitos analistas é a de um avanço gradual e constante em vários setores da frente. Por seu lado, a Ucrânia parece ter abandonado a ideia de grandes contraofensivas e privilegia cada vez mais uma estratégia de contenção, recuos táticos e ataques de longo alcance contra a retaguarda russa.
Tal opção parece resultar de uma constatação pragmática: quando os recursos disponíveis não permitem defender todos os setores nem lançar operações ofensivas de grande escala, torna-se necessário procurar formas alternativas de impor custos ao adversário. Resta saber se atacar o combustível russo e tentar destruir pontes conseguirá alterar a dinâmica geral da guerra antes que as próprias vulnerabilidades energéticas e logísticas da Ucrânia se façam sentir de forma mais profunda. O inverno chegará em seis meses e será duro a quem não tem energia.
Essa poderá ser uma das grandes questões estratégicas do conflito: saber se a Ucrânia atingirá os limites da sua capacidade de sustentação numa guerra de desgaste que já deixou de ser apenas uma luta por território e passou igualmente a ser uma batalha pela energia, pela logística e pelo tempo.
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