
Partimos sem percebê-los.
A atenção costuma estar voltada para as velas, para os mapas, para o horizonte. Observamos o que é grande, o que é visível, o que parece decisivo para a travessia.
Enquanto isso, algo se move pelos porões.
Quase sempre à noite.
Quase sempre longe dos olhos.
Não fazem discursos. Não anunciam sua presença. Não exigem espaço no convés.
Contentam-se com migalhas.
Um pedaço de corda aqui.
Um saco de provisões ali.
Uma pequena fresta esquecida.
Nada que pareça importante.
Pelo menos no início.
Os marinheiros sabiam que o perigo nem sempre vinha das tormentas. Havia ameaças menores, discretas, pacientes. Coisas que não afundavam uma nau de uma só vez.
Preferiam o desgaste.
A erosão.
O consumo lento.
Talvez por isso fossem tão difíceis de enfrentar.
É fácil perceber uma onda gigantesca.
Difícil é notar aquilo que diminui a embarcação grão por grão.
Da mesma maneira carregamos nossos porões.
Lugares onde raramente descemos.
Compartimentos pouco iluminados, ocupados por coisas acumuladas ao longo da viagem.
E é justamente ali que certas presenças prosperam.
Pequenas irritações.
Velhos ressentimentos.
Invejas quase imperceptíveis.
Mágoas que julgamos insignificantes.
Nada muito grande.
Nada que mereça preocupação imediata.
Apenas pequenas mordidas.
Dia após dia.
No começo, mal as percebemos.
Depois estranhamos a falta de alguma coisa.
Uma alegria que diminuiu.
Uma paciência que desapareceu.
Uma leveza que já não encontramos onde costumava estar.
Então compreendemos.
Nem todo prejuízo acontece de forma espetacular.
Há perdas que chegam sem ruído.
Sem tempestade.
Sem naufrágio.
Apenas através de um trabalho contínuo realizado na escuridão.
Os antigos navegadores conheciam essa lição. Por isso desciam aos porões.
Inspecionavam os cantos.
Observavam os sinais.
Sabiam que cuidar da travessia exigia atenção não apenas ao horizonte, mas também ao que se escondia abaixo do convés.
É que algumas ameaças vêm de fora.
Outras embarcam conosco.
E passam a viagem inteira esperando que deixemos de prestar atenção. Charge: Túlio Desenhista
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