João Gomes
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"NEPTUNE" DE TRIDENTE AFIADO CONTRA A PAZ


Por: | 29/06/2026


   Há uma contradição que a guerra na Ucrânia parece já não conseguir esconder. Enquanto se multiplicam as declarações sobre a necessidade de abrir canais diplomáticos, procurar uma solução negociada e criar condições para um eventual cessar-fogo, a realidade segue um caminho exatamente oposto: cada novo anúncio é o de uma arma mais sofisticada, de maior alcance e de maior capacidade destrutiva.

 O recente anúncio da cooperação entre a indústria ucraniana e a europeia para desenvolver o Neptune 2 é mais um exemplo dessa dualidade. Não se pode negar o direito da Ucrânia a procurar meios de defesa perante num conflito que continua a marcar tragicamente o seu território - independentemente das razões que existem para ele. Mas também é legítimo perguntar que mensagem política transmite a Europa quando, ao mesmo tempo que afirma desejar o diálogo com Moscovo, anuncia publicamente o desenvolvimento de um míssil concebido para penetrar defesas, atingir centros de comando e aumentar a capacidade de ataque profundo.

  As capacidades militares existem para responder a cenários de guerra, e os Estados têm o direito de investir na sua defesa. O problema não reside necessariamente na existência desses programas. Reside na forma como são apresentados e no momento político em que são anunciados.

 Se verdadeiramente se pretende criar espaço para negociações, reduzir a tensão e incentivar compromissos entre as partes, faz pouco sentido transformar cada novo sistema de armas num acontecimento mediático ou numa demonstração pública de força. Cada anúncio desta natureza alimenta inevitavelmente a perceção de que nenhuma das partes acredita seriamente numa solução política próxima. Quando um lado exibe novas capacidades ofensivas, o outro responderá acelerando igualmente os seus programas militares. O resultado raramente é a aproximação à paz; é, quase sempre, um novo degrau na escada da escalada.

  A própria União Europeia acaba por transmitir um discurso contraditório. Por um lado, vários líderes europeus afirmam desejar manter aberta a porta do diálogo com a Rússia e defender uma solução diplomática quando as circunstâncias o permitirem. Por outro, celebra-se publicamente cada novo passo na integração da indústria militar europeia com a indústria de guerra ucraniana. A diplomacia vive tanto de gestos discretos como de palavras públicas.

    Zelensky tem repetidamente apelado ao reforço do apoio militar, ao mesmo tempo que afirma estar disponível para negociações em determinadas condições. Essas duas posições podem coexistir do ponto de vista estratégico. Contudo, quanto mais se enfatiza o desenvolvimento de armamento ofensivo e de longo alcance, mais difícil se torna convencer a outra parte de que existe uma verdadeira vontade de abrir um caminho para compromissos.

  Na história das grandes guerras, muitas das negociações mais importantes decorreram precisamente quando os programas militares continuavam a existir, mas deixavam de ocupar o centro da comunicação pública. As armas permaneciam nos arsenais; as noticias começavam a falar de contactos diplomáticos. Hoje parece acontecer o contrário: a diplomacia surge quase como um rodapé, enquanto os novos sistemas de combate ocupam o destaque principal.

    Talvez a paz também exija discrição. Talvez o verdadeiro sinal de maturidade política não seja anunciar cada novo míssil, mas criar um ambiente onde as palavras recuperem algum espaço perante os arsenais. Porque quando o tridente é constantemente afiado diante das câmaras, dificilmente a oliveira consegue lançar raízes. E enquanto a guerra continuar a ser apresentada como uma sucessão de avanços tecnológicos, o horizonte da paz permanecerá sempre um pouco mais distante.




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