Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

O OLHAR DO AMIGO


Por: | 01/07/2026


 Passamos a vida colecionando paisagens, mas são poucos os olhares onde conseguimos repousar.

O amigo é uma dessas raras moradas que não se constroem com pedras, mas com permanências. Seu olhar não chega como quem visita. Habita-nos.

    Há nele a serenidade dos rios antigos, que conhecem cada curva da margem sem jamais lhe exigir explicações. Não interrogam as nossas cicatrizes, porque sabem que toda pele é um mapa desenhado pelo tempo.

  Também não se encantam com os nossos disfarces. A luz que procura nasce mais fundo, onde a alma ainda conserva o primeiro nome que recebeu da vida.

 Enquanto tantos olhos percorrem apenas a casca das horas, o olhar do amigo atravessa estações. Reconhece o inverno escondido atrás das flores e a primavera adormecida sob os galhos secos. Descobre o canto do pássaro antes mesmo que a manhã desperte em nós.

  Há encontros em que as palavras apenas atrapalham. Então o silêncio passa a exercer o ofício da água: limpa, alimenta e segue o seu curso sem anunciar o próprio caminho.

Assim acontece entre nós. Um olhar basta para que a dor encontre abrigo e a alegria dispense testemunhas.

   É um olhar que não pesa como sentença. Paira como a sombra generosa de uma árvore centenária sobre o viajante exausto. 

Não encurta a estrada que percorremos, mas devolve forças aos nossos passos. Não altera o destino, mas nos reconcilia com a própria caminhada.

    Quando recebemos um olhar assim, descobrimos que a existência não é feita apenas dos dias que vivemos. Também pertence aos instantes em que alguém nos enxergou por inteiro, sem pedir que fôssemos diferentes do que éramos.

    Por isso o tempo fracassa diante da amizade. Pode embranquecer os nossos cabelos, curvar a nossa coluna, enfraquecer a memória e espalhar distâncias pelos continentes. Ainda assim, basta que nos reencontremos para que os anos recuem, como a maré diante da lua.

O olhar do amigo não procura as pessoas em que o tempo nos transformou. Reconhece, intacta, a centelha que o tempo jamais conseguiu tocar em nós.


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