
Há quem diga que a História nunca se repete. Talvez seja mais correto afirmar que a História nunca deixa de influenciar o presente. É precisamente essa convicção que me leva a olhar para a guerra da Ucrânia e para o comportamento dos países bálticos de forma diferente daquela que domina o discurso político e mediático europeu.
O acordo de segurança celebrado entre a Ucrânia e a Letónia em 2024 representa muito mais do que um simples instrumento de cooperação militar. A leitura oficial fala de formação, partilha de experiências, especialistas em drones e reforço da defesa. A minha interpretação é outra: considero que esse acordo abriu a porta à presença operacional de militares ucranianos em território letão e criou as condições para uma colaboração militar cujo verdadeiro alcance dificilmente será conhecido enquanto o conflito durar.
Não posso afirmar que todos os acontecimentos posteriores decorram necessariamente desse acordo. Afirmo, isso sim, que existem demasiadas coincidências para que esta possibilidade seja descartada sem reflexão. Quando surgem notícias sobre especialistas militares ucranianos em território letão, sobre treino conjunto, sobre desenvolvimento de capacidades de combate com drones e sobre uma crescente integração operacional, parece-me legítimo perguntar se estaremos apenas perante missões de aconselhamento ou perante uma estratégia muito mais profunda.
Na minha leitura, as ações militares modernas não se improvisam. São preparadas durante meses ou anos, exigem logística, treino, comunicações, inteligência e integração entre forças. Por isso, não excluo que determinadas capacidades hoje demonstradas pela Ucrânia resultem também de uma preparação realizada fora do seu território, com o apoio discreto de alguns aliados.
Mas o aspeto mais interessante talvez seja outro. Os Estados Bálticos continuam profundamente condicionados pela memória da União Soviética. Percebo que essa memória exista e tenha influenciado as novas gerações bálticas. Mas o que me parece discutível é que essa experiência histórica continue a determinar quase toda a política externa atual, como se a Federação Russa fosse simplesmente a continuação ideológica da antiga URSS.
Na realidade, a Rússia contemporânea está longe de corresponder ao antigo modelo soviético. O seu sistema político, económico e social é substancialmente diferente. Ainda assim, muitos dirigentes bálticos continuam a olhar para Moscovo através das lentes da Guerra Fria, transformando um trauma histórico numa referência permanente para as decisões do presente. É precisamente aí que encontro uma das maiores contradições do momento político europeu.
Enquanto tudo o que recorda o passado soviético é sistematicamente removido ou condenado, assiste-se, em alguns casos, à reabilitação de figuras históricas profundamente controversas do nacionalismo ucraniano. A forma como personagens como Bandera ou Mazepa passaram a ocupar um lugar simbólico na narrativa oficial suscita questões que raramente encontram espaço no debate europeu. A Polónia, por exemplo, tem manifestado, em diferentes ocasiões, reservas relativamente a algumas dessas homenagens, demonstrando que a questão está longe de ser consensual. Ora, as gerações da Polónia também tem memória.
Tenho a noção de que a Europa de hoje aceita hoje determinadas ambiguidades históricas que dificilmente aceitaria noutro contexto geopolítico. Em nome do apoio à Ucrânia, certos aspetos da memória histórica são relativizados, enquanto qualquer referência crítica é frequentemente recebida com suspeita ou imediatamente associada a posições favoráveis ao Moscovo. Por aqui passam dezenas de comentários falando em "regime comunista" na Rússia e outros epítetos ainda mais ignorantes e desagradáveis.
Mas, se não pretendo convencer quem pensa de forma diferente. Também não espero que esta leitura venha a ser aceite pelos discursos oficiais europeus. Pretendo apenas recordar que a História continua a pesar sobre a política europeia e que, muitas vezes, os conflitos do presente são alimentados por memórias, ressentimentos e escolhas identitárias construídas ao longo de gerações. Talvez seja precisamente isso que estamos a assistir.
É ridículo que, alguns, na Europa e em especial nos Bálticos, continuem a marcar a hora pelo passado.
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