“Nunca beijei a mocinha no final da fita”
Francisco Gil Messias
gmessias@reitopria.ufpb.br
A frase acima foi dita pelo ator brasileiro Wilson Grey (1923-1993). Os mais antigos certamente lembram-se dele: magro, bigode fino, fartos cabelos pretos de brilhantina, ar de malandro e vilão. Foi sempre coadjuvante, jamais galã, o que explica nunca ter beijado a mocinha no final da fita. Essa figura e essa frase encerram a tragédia de muitos, constituindo-se mesmo num destino ou, mais propriamente, numa sina.
Conta o cronista Alberto Costa e Silva, o célebre Marechal (apesar de nada ter a ver com o outro, o verdadeiro), que Grey foi na vida real praticamente uma cópia dos personagens que interpretou no cinema: “desfilava sua magreza pelos becos internos da Cinelândia e tardes de páreos e apostas no hipódromo da Gávea”. Verdade seja dita, o tipo físico do ator combinava com essa, digamos, ambiência “boêmia”. Imagino que ele deve ter sido também um contumaz frequentador de botecos e, quem sabe, de gafieiras da Lapa, tudo inserido naquele universo da saudável malandragem carioca da época, hoje se já não extinto, em vias de. Os malandros agora são de outra espécie.
José Lewgoy e Hugo Carvana também foram atores que encarnaram bem personagens semelhantes aos de Grey. Eles não beijaram a mocinha no final da fita. Carregou cada qual o seu biótipo como quem carrega uma cruz, procurando, claro, como bons malandros, tirar o melhor proveito do fardo. Sina é sina, não há o que fazer, paciência.
Beijar a mocinha no final da fita não é mesmo para qualquer um nem para todo mundo. Não só nos filmes, mas na vida também. Diria mais: é para pouquíssimos, para os eleitos. O resto de nós tem de se conformar com os segundos e terceiros papéis, fazer o quê? E não se trata de injustiça da vida ou dos céus, mas de simples lógica, já que na tribo são poucos os que mandam e muitos os que obedecem. A questão é compreender isso, para poder aceitar numa boa as diferenças do mundo. Se você não nasceu para Tony Ramos e sim para Wilson Grey, melhor se conformar, para viver menos infeliz.
Há uma filosofia nessa aceitação, assim como há desinteligência na irresignação. Não quer isso dizer que devamos nos acomodar facilmente às situações, pelo contrário. Devemos, óbvio, lutar o quanto pudermos, sempre com as melhores armas, para alcançarmos as metas que nos propomos na vida, mas também acatar, com a sabedoria possível, o resultado dessa luta, não raramente aquém do que esperamos. Parece autoajuda – e é. Qual o problema? A filosofia moral tem muito de autoajuda - e vice-versa. Sem comparações, evidentemente, os ensaios de Montaigne e todos os moralistas são – ou podem ser – autoajuda. De tudo isso, pode-se fazer uma maneira de viver e até uma crônica. É o caso.
Não pense o leitor que estou a contar vantagem se afirmo que mais ou menos cedo na vida aceitei a fatalidade de não beijar a mocinha no final da fita. Nem no final nem durante a fita, para ser mais preciso. Tive essa sorte, posso dizer, se é que é sorte de fato, e a partir daí organizei com razoável tranquilidade minha humana mediania, a qual espero não signifique necessariamente mediocridade, já que são coisas diferentes: mediano, sim; medíocre, nem sempre, tá de bom tamanho assim.
Querer ser o príncipe da estória muita vez é o problema. Alguém tem que ser o sapo, ora, e qualquer um pode ser escalado para esse papel inglório. Alguém tem que interpretar o vilão, o malandro, o coadjuvante. Wilson Grey sabia disso e procurou fazer a sua parte o melhor possível. Em Hollywood, o Oscar de melhor ator coadjuvante serve exatamente para aplaudir os que trabalham bem mesmo não sendo os mocinhos do filme. E talvez esse seja de fato o prêmio mais importante, por ser o mais difícil, já que os galãs e os heróis saem na frente naturalmente.
Definitivamente, “nunca beijei a mocinha no final da fita” não é uma frase banal e sim algo para se refletir, pois é fértil em implicações filosóficas e existenciais. A maioria de nós não beija a mocinha no final da fita e nem por isso a terra deixa de rodar e o sol de nascer toda manhã. A vida é como é – e pronto.
Ser Tarcísio Meira é fácil, imagino, mas ser Wilson Grey é que são elas.
Coragem!
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