Aloísio Lobo
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ORAÇÃO POR SÃO JORGE


Por: | 03/07/2026


 São Jorge deve andar preocupado.

Não com o dragão. Aquele era previsível. Rugia alto, soltava fumaça e tinha a gentileza de mostrar os dentes antes do ataque.

    Os dragões de agora fizeram curso de boas maneiras. Sorriem para fotografias, escrevem mensagens motivacionais, distribuem opiniões em embalagens elegantes e conseguem incendiar uma cidade usando apenas o polegar sobre uma tela.

   A espada do santo também precisou de atualização. Já não corta escamas. Tenta abrir caminho entre boletins falsos, discursos vazios, promessas com garantia vencida e egos que estacionam em vagas para humildes.

 O cavalo, coitado, vive cansado.

Passa o dia desviando de buracos nas ruas, nas ideias e no caráter. Descobriu que estes últimos são os mais difíceis de contornar, porque ninguém admite ser o proprietário.

Quanto ao dragão, modernizou-se.

Abandonou o fogo. Hoje prefere acender vaidades. É mais econômico e produz muito mais fumaça.

  São Jorge continua santo porque nunca perdeu tempo discutindo com o monstro. Apenas fazia o que precisava ser feito.

Talvez a oração também mereça uma pequena revisão.

Onde se pedia proteção contra espadas, convém acrescentar as palavras.

Onde se pedia defesa contra inimigos, convém incluir os próprios impulsos.

Onde se buscava força para vencer, convém pedir sabedoria para não precisar humilhar ninguém.

E onde se agradecia por sobreviver à batalha, convém agradecer por ainda reconhecer um amigo, oferecer um abraço sem segunda intenção e rir de si mesmo.

Os dragões mudam de roupa a cada século.

  A humanidade, insistente aprendiz, continua acreditando que eles moram sempre na casa ao lado.


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