João Gomes
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João Gomes

DEIXA ARDER QUE SE HÁ DE APAGAR


Por: | 03/07/2026


    Há frases que definem um país. Esta talvez seja uma delas. Não porque alguém a diga em voz alta, mas porque parece ser a filosofia que, ano após ano, orienta a forma como Portugal enfrenta os incêndios florestais: deixa arder... que depois logo se apaga.

   Vem o calor. As temperaturas sobem. O vento sopra. As notícias repetem-se. As televisões instalam-se em direto junto às chamas. Os helicópteros cruzam os céus. Os bombeiros combatem o impossível. Os ministros deslocam-se ao terreno. Os responsáveis fazem pontos de situação. Prometem-se investigações, reforços, planos, reformas e mudanças.

Depois chega o outono, as primeiras chuvas e, com elas, o esquecimento. Até ao verão seguinte.

   Há décadas que este filme passa em reposição. Mudam os governos, mudam os ministros, mudam os comandantes da Proteção Civil e aumentam os meios de combate. Há mais bombeiros, mais viaturas, mais helicópteros, mais aviões, mais drones, mais tecnologia e mais conferências de imprensa. Tudo isso é necessário. Tudo isso salva vidas. Tudo isso merece reconhecimento. Mas tudo isso continua a parecer o equivalente a tentar apagar uma enorme lareira com um copo de água, enquanto ninguém se preocupa em fechar a torneira do gás que continua aberta.

    Porque o verdadeiro incêndio começa muito antes da primeira chama. Começa no abandono do interior. Nos campos que deixaram de ser cultivados. Nos milhares de hectares entregues ao mato. Na floresta sem gestão. Na propriedade dividida por dezenas de herdeiros que já nem sabem onde ficam os terrenos que possuem. Nas aldeias cada vez mais vazias. Na ausência de rentabilidade da floresta. Na falta de uma política nacional capaz de transformar um problema crónico numa prioridade permanente. E enquanto isso não mudar, cada verão será apenas uma nova temporada da mesma série.

  Curiosamente, o país orgulha-se, e bem, da rapidez com que mobiliza milhares de operacionais para combater o fogo. Mas talvez fosse mais sensato perguntarmo-nos porque é necessário mobilizar um verdadeiro exército todos os anos. Se um hospital precisasse diariamente de centenas de médicos apenas para impedir que o edifício desabasse, talvez alguém concluísse que o problema não estava na falta de médicos, mas nas fundações.

Na floresta portuguesa continuamos a reforçar os "médicos". Mas as fundações continuam rachadas.

   Todos os anos se anunciam mais meios aéreos. É uma boa notícia. Mas talvez fosse uma notícia ainda melhor ouvir que, dali a vinte anos, seriam precisos menos aviões porque haveria menos combustível para arder. Essa é a diferença entre combater consequências e resolver causas.

   Os bombeiros são heróis. Não porque gostem do fogo, mas porque são chamados a enfrentar aquilo que o país não conseguiu evitar. Fazem o seu trabalho com coragem, muitas vezes colocando a própria vida em risco para proteger pessoas, casas e património. Não lhes podemos pedir que resolvam um problema que começa muito antes de vestirem a farda.

   Também não será a visita apressada de um ministro, entre duas câmaras de televisão, que apagará um incêndio ou regenerará uma floresta. A presença institucional é importante. Mas não substitui décadas de planeamento, de ordenamento do território e de políticas consistentes. Portugal continua preso a uma lógica curiosa: investe milhões a combater o fogo, mas hesita em investir, durante todo o ano, para que o fogo tenha menos condições para existir.

É uma estratégia semelhante à de quem compra cada vez mais baldes, mas nunca repara o telhado por onde entra a água. Depois admira-se que a casa continue a inundar.

 As alterações climáticas vieram tornar tudo ainda mais difícil. Os verões são mais quentes, mais secos e mais longos. Os dias de risco extremo multiplicam-se. Mas precisamente por isso seria de esperar uma resposta estrutural igualmente ambiciosa. Em vez disso, continuamos presos ao calendário. Primavera para limpar. Verão para arder. Outono para contar prejuízos. Inverno para anunciar reformas que raramente chegam ao terreno com a profundidade necessária.

  Entretanto, Portugal vai perdendo, hectare após hectare, uma parte da sua riqueza natural. A floresta desaparece lentamente. Os solos empobrecem. O interior desertifica-se. As aldeias ficam mais pequenas. O ciclo repete-se. E talvez seja precisamente essa repetição o maior dos perigos. Quando um problema se torna rotina, deixa de escandalizar. Passa apenas a fazer parte da paisagem. Até que um dia percebamos que a paisagem já não existe.

    Nesse dia talvez finalmente se conclua que apagar incêndios nunca foi, por si só, uma política florestal. Foi apenas a forma mais cara, mais dolorosa e mais repetida de adiar a solução. Porque, enquanto a resposta continuar a começar quando se vê o primeiro fumo no horizonte, continuaremos condenados a repetir, todos os verões, o mesmo triste lema nacional:

"Deixa arder... que se há de apagar."




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