
Estou acompanhando a discussão iniciada pelo meu bom amigo e escritor dos melhores, Odenildo Sena, a partir de uma matéria veiculada na Folha/UOL, sobre um percentual preocupante de livros, lançados na plataforma Kindle, produzidos utilizando a I.A.
E danei-me a refletir sobre o assunto.
E lembrei-me da caminhada humana pela terra.
Nós acendemos fogueiras antes de acendermos telas. Muito antes de aprendermos a conversar com máquinas, aprendemos a conversar com o silêncio. O vento foi nosso primeiro professor. Os rios nos ensinaram o caminho. As árvores nos mostraram que crescer exige raízes. As estrelas nos deram o relógio, e o coração, velho marinheiro, já conhecia o rumo quando ainda nem existia bússola.
Trazemos uma inteligência antiga. Ancestral. Que não nasceu em laboratórios. Que foi escrita em calos, lágrimas, tropeços e recomeços. É a inteligência da avó que curava sem diploma, do pescador que lia as nuvens, da parteira que reconhecia a hora da vida, do agricultor que entendia a linguagem da terra sem precisar de aplicativos para consultar a previsão do tempo.
Depois inventamos a máquina.
E, como acontece com toda invenção humana, ela logo começou a nos reinventar.
Agora fazemos perguntas a uma inteligência que responde em segundos aquilo que levaríamos dias para descobrir. Ela organiza bibliotecas, traduz idiomas, compõe músicas, desenha imagens e até escreve textos que parecem respirar.
Parece.
Porque respirar continua sendo um privilégio nosso.
A inteligência artificial calcula. A inteligência ancestral contempla. Uma reconhece padrões; a outra reconhece pessoas. Uma sabe onde está a informação; a outra descobre por que ela importa.
Quando confundimos essas duas inteligências, começamos a acreditar que velocidade é sabedoria.
Não é.
O mundo atravessa mais uma revolução. Houve a do fogo, a da roda, a da escrita, a da imprensa, a da máquina a vapor, a da eletricidade e a da internet. Agora atravessamos a revolução dos algoritmos.
Cada uma delas ampliou nossas possibilidades. Nenhuma resolveu o velho desafio de sermos melhores do que ontem.
O Papa Leão XIV, ao refletir sobre este novo tempo, recordou que a técnica precisa caminhar de mãos dadas com a dignidade humana. Advertiu que nenhuma inteligência fabricada poderá substituir a consciência, a responsabilidade e a compaixão. Era um lembrete dirigido aos seus criadores.
O perigo nunca esteve no martelo, mas na mão que o empunha.
Construímos máquinas extraordinárias. Que elas nos ajudem a curar doenças, proteger florestas, aproximar povos e aliviar sofrimentos. Mas que nunca nos convençam de que um abraço pode ser digitalizado, de que um perdão cabe em um banco de dados ou de que o amor aceita ser reduzido a uma sequência de códigos.
Existe uma biblioteca que algoritmo algum consegue acessar.
Ela não fica nas nuvens da internet.
Viaja conosco.
É ali que repousam as lições que o tempo escreveu em nossa travessia, as memórias que não cabem em discos nem em servidores, a antiga luz que atravessa gerações e continua acesa, esperando apenas que tenhamos coragem de escutá-la.
Enquanto ensinamos as máquinas a pensar, não deixemos de ensinar a nós mesmos a sentir.
É que quando a inteligência aprende a amar, deixa de ser apenas inteligência.
Torna-se sabedoria.
(*) Aloísio Lôbo é jornalista.
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