Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Personagens amigas

Por: | 07/07/2026

Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Personagens amigas

Em seu delicioso livro, Geografia do tempo, Ary Quintella resume, logo no primeiro texto, “Julgamento de Julien Sorel”, os círculos possíveis das amizades literárias, em 5 categorias, a saber: escritores mortos, certos livros, personagens, figuras históricas e pessoas reais.

Fiquemos por hoje com a categoria dos personagens com as quais nos mantivemos, ao longo do tempo, em curiosa e intensa relação de amizade.

O Carlinhos, de Menino de engenho, romance de Zé Lins, que inaugura o ciclo da cana-de-açúcar, é o primeiro que me vem à memória. Fui amigo dele desde a já distante leitura que fiz de suas peripécias no engenho Corredor. Também fui menino do campo, criado em meio aos bichos e tocado pelo silêncio e pela solidão das grotas e furnas da fazenda dos meus pais e avós. Íntimo de Carlinhos, compreendia bem sua tristeza e seu deslocamento em face dos adultos, assim como a experiência da morte e a sequência de perdas que marcaram sua vida. Para mim, a narrativa de Zé Lins é muito mais do que um exemplo de regionalismo. É uma narrativa de fundo psicológico e existencial que contém, na sua fabulação, aquele sentimento trágico da vida, de que fala Miguel de Unamuno. Aqui e ali, ainda volto a prosear com esse amigo com quem tanto aprendi da arbitrariedade que preside o destino humano.

Do mesmo Zé Lins, gosto muito do seleiro Zé Amaro, de Fogo morto. Seus monólogos interiores, sua ira asfixiada, seus tormentos noturnos, sua condição de oprimido e excluído no tecido social me calaram fundo na alma solitária de leitor. Além do sentimento de amizade que cultivo por este “herói problemático”, como diria Lukács, tenho por ele respeito e admiração, além da compaixão e do espanto diante de sua trajetória trágica.
Em poucas personagens vi tanta fibra e fúria.

Também recordo a figura atormentada de Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos. A despeito da ambição, da truculência, do machismo, sempre nutri certa simpatia por ele, emaranhado em seus conflitos pessoais e nas suas crises de ciúme. Escrever um livro, para tentar, talvez, entender os tristes acontecimentos que vivenciou, decerto constitui uma variável decisiva na amizade que lhe devoto. Ninguém fica imune à rude sabedoria deste grande personagem.

Sou mais amigo de Capítu que de Bentinho. Este é um fraco, um inseguro, um ressentido, um egoísta, com alguma coisa de hipócrita e cínico. Aquela, não. Capitu sabe ser mulher numa sociedade de machos. “Olhos oblíquos e dissimulados”. “Olhos de ressaca”. Isto é ótimo! E se traiu ou não traiu, isso me parece irrelevante do ponto de vista estético. Na verdade, a traição reside na lógica ambivalente da linguagem literária. Afinal, como afirma o grande poeta José Antônio Assunção, no último poema de O câncer no pêssego: “toda palavra me trai”.

Publicado hoje, 05/07/26, em A União)


FONTE: A União - Facebook - Acesse

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