João Gomes
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João Gomes

REFLEXÃO- DO MÍSSIL À REDUÇÃO DO APOIO SOCIAL


Por: | 08/07/2026


  O Que Devem Esperar os Cidadãos da Europa

A aposta europeia num vasto programa de desenvolvimento de capacidades de ataque de precisão de longo alcance poderá ser uma delas. O anúncio fala de cerca de 44 mil milhões de euros distribuídos ao longo de uma década. O número impressiona, mas, na verdade, representa apenas uma parcela de um movimento muito mais vasto: o rearmamento da Europa.

  A questão que poucos colocam não é a de saber se os países têm o direito de se defender. Naturalmente que têm. A verdadeira questão é outra: quem pagará a conta e quais serão as prioridades quando chegar o momento de distribuir recursos que nunca são ilimitados?

   Cada euro investido numa área deixa de poder ser aplicado noutra. É uma realidade incontornável das finanças públicas. Os governos poderão aumentar impostos, recorrer a mais dívida ou redistribuir verbas já existentes. Seja qual for a opção, dificilmente será possível evitar consequências.

    Quando se anunciam novos programas militares, a atenção concentra-se normalmente na tecnologia. Fala-se de mísseis, de alcance, de precisão, de inteligência artificial, de novos sistemas de navegação ou de capacidades de dissuasão. Quase nunca se fala daquilo que deixa de ser construído para financiar essas prioridades.

  Menos hospitais modernizados. Menos centros de saúde. Menos escolas renovadas. Menos investimento em habitação pública. Menos apoio à investigação científica fora do setor da defesa. Menos capacidade para responder ao envelhecimento da população. Tudo isto poderá não acontecer de imediato, mas constitui uma possibilidade real sempre que os orçamentos públicos são pressionados por despesas permanentes de grande dimensão.

    Naturalmente, os defensores deste investimento lembram que a indústria da defesa também cria riqueza. Novas fábricas significam empregos qualificados, desenvolvimento tecnológico, contratos para milhares de pequenas empresas, inovação em eletrónica, metalurgia, software e materiais avançados.  Mas importa perguntar: desenvolvimento para quê e para quem?

    Se a prosperidade gerada por esses investimentos não se traduzir numa melhoria efetiva da qualidade de vida dos cidadãos, o crescimento económico poderá transformar-se numa estatística sem correspondência com a realidade quotidiana. Uma fábrica de mísseis pode criar centenas de postos de trabalho, mas dificilmente substituirá um sistema nacional de saúde eficiente ou uma escola pública de qualidade.

    Existe ainda uma dimensão política frequentemente esquecida. Sempre que uma sociedade aumenta significativamente a despesa militar durante muitos anos, cria interesses económicos permanentes. Empresas, fornecedores, centros de investigação e milhares de trabalhadores passam a depender da continuidade desses programas. A indústria deixa de ser apenas um instrumento da política; passa também a influenciar as opções políticas. A História mostra que, quando essa dinâmica se instala, reduzir a despesa militar torna-se muito mais difícil, mesmo quando o contexto internacional muda.

     É precisamente por isso que os cidadãos não devem olhar apenas para o valor anunciado hoje. Devem perguntar-se como será a Europa daqui a dez ou quinze anos. Será uma Europa mais segura Provavelmente, estará mais preparada do ponto de vista militar. Será também uma Europa mais próspera? Essa resposta depende de fatores muito mais complexos. Segurança sem crescimento económico dificilmente gera prosperidade. Mas crescimento económico sem investimento suficiente na saúde, na educação, na ciência, na habitação ou na proteção social também não constrói sociedades equilibradas.

   O modelo europeu não foi construído com mísseis. Foi construído com escolas, hospitais, sistemas públicos de proteção social, direitos laborais e investimento nas pessoas. O que parece legitimo deixa de ser legítimo ao apresentar esse esforço como se não tivesse custos ou como se pudesse ser financiado sem escolhas difíceis. As escolhas existirão sempre. E, mais cedo ou mais tarde, chegarão à vida quotidiana de cada cidadão.

    Talvez a verdadeira reflexão não seja sobre os mísseis que a Europa pretende construir, mas sobre a Europa que deseja preservar. Porque, no fim, a força de um continente não se mede apenas pela distância que os seus mísseis conseguem alcançar. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de garantir dignidade, oportunidades e segurança social aos milhões de pessoas que nele vivem. Se um dia tivermos de escolher entre reforçar os arsenais e enfraquecer silenciosamente esses pilares, então o debate deixará de ser militar. Passará a ser, acima de tudo, um debate sobre o futuro da própria sociedade europeia.


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