Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A BANDEIRA QUE ENTROU EM CAMPO


Por: | 08/07/2026


  Há muito tempo o futebol deixou de caber dentro das quatro linhas.

A bola continua redonda. O gramado continua verde. Mas o jogo, ah, o jogo… esse passou a ser disputado também nas trincheiras da consciência.

 Terminou a partida. O treinador egípcio ergueu uma bandeira da Palestina. Não levantou um troféu. Levantou uma dor. Em resposta, das arquibancadas, surgiram bandeiras de Israel. Em poucos segundos, o estádio deixou de ser estádio. Transformou-se numa pequena ONU sem diplomatas, onde cada pedaço de tecido gritava aquilo que a política internacional insiste em calar.

É curioso.

 Os homens conseguem organizar uma Copa do Mundo com precisão cirúrgica, controlar impedimentos por inteligência artificial, medir milímetros com sensores e satélites… mas continuam incapazes de impedir que uma criança morra sob os escombros de uma guerra.

Talvez porque a tecnologia tenha evoluído mais depressa que a ética.

  Vivemos uma época estranha. As bandeiras deixaram de representar povos; passaram a representar torcidas. E quando uma bandeira vira torcida, o sofrimento humano vira placar.

“Do meu lado morreram menos.”

Como se a matemática pudesse absolver a tragédia.

   O filósofo Albert Camus, que conhecia a guerra e amava o futebol, escreveu que “tudo o que sei sobre moral aprendi nos campos de futebol”. Talvez porque ali se aprende que existe adversário, não inimigo.

O adversário merece respeito.

O inimigo merece destruição.

Quando confundimos uma coisa com a outra, a civilização começa a desmoronar.

    Hannah Arendt advertia que a maior ameaça não era a maldade extraordinária, mas a banalização dela. O horror se torna rotina quando deixamos de enxergar rostos e passamos a enxergar apenas símbolos.

E símbolos não sangram.

Crianças, sim.

A ironia mais cruel é que quase ninguém naquele estádio poderia resolver o conflito do Oriente Médio. Mas todos conseguiam ampliá-lo por alguns segundos.

É mais fácil levantar uma bandeira do que levantar uma pergunta.

Quem lucra com essa guerra?

Quem vende as armas?

Quem transforma cadáveres em discursos patrióticos?

Quem negocia a paz apenas quando ela rende dividendos?

  Enquanto discutimos qual bandeira merece ser aplaudida, o mercado continua vendendo mísseis para ambos os lados. A guerra, afinal, também tem acionistas.

A história ensina uma lição que insistimos em esquecer: nacionalismos inflamados costumam começar com bandeiras erguidas e terminar com cruzes fincadas.

Não existe vitória quando mães enterram filhos.

Não existe glória onde hospitais se tornam alvos.

Não existe Deus que sorria diante da celebração da morte.

  Talvez o treinador egípcio e os torcedores argentinos tenham levado para o estádio aquilo que carregavam na alma. É humano. O problema começa quando deixamos de reconhecer a humanidade de quem está do outro lado.

Porque a bandeira mais difícil de levantar continua sendo aquela que nunca aparece nas transmissões esportivas.

A bandeira da compaixão.

Ela não vence eleições.

Não viraliza nas redes sociais.

Não rende manchetes.

   Mas talvez seja a única capaz de impedir que o próximo campeonato da humanidade continue sendo disputado sobre os escombros da própria civilização.


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