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Glorinha sempre teve vocação para a fisioterapia. Revelou-se ainda no curso médio, quando socorria colegas que se contundiam nas aulas de educação física.
Ah, sim, ela tinha um defeito ocular que lhe rendeu muitas humilhações, durante a adolescência, deixando-a complexada. Mas, depois de adulta, conseguiu administrar isso, que passou a ser um problema de ordem tão somente psicológica.
A princípio, ela pensava em estudar medicina. Mas em sua cidade natal, na Zona da Mata pernambucana, o custo era proibitivo para a sua família. Que também não poderia sustentá-la em Recife, onde poderia cursar a Universidade Federal.
Assim, prestou concurso vestibular na faculdade de Fisioterapia da sua cidade, que era uma das melhores do país. Muito inteligente, tornou-se a melhor aluna de sua turma.
O curso era tão bom que as aulas de anatomia, dadas por fisioterapeutas, ortopedistas e neurologistas, logo deixaram Glorinha fascinada, que passou a conhecer o corpo humano, todos os seus ossos, músculos e nervos, mais do que qualquer outro aluno. Isso veio a exercer boa influência na sua vida profissional.
Concluído o curso superior, trabalhou em várias cidades de Pernambuco. Recebeu propostas para trabalhar no Paraná, mas foi bater numa capital do Nordeste, atraída principalmente pelo padrão de vida oferecido. Lá, abriu a sua clínica com o marido que arranjou na cidade.
Rapidamente, ganhou fama de excelente fisioterapeuta. Até parecia que tinha olhos nos dedos das mãos! Mas não ficou limitada ao trabalho: não perdia cursos de aperfeiçoamento. Mantinha-se sempre atualizada.
Um desses cursos foi o de Acupuntura. Ela entusiasmou-se pela prática e resultados que esta poderia oferecer aos seus pacientes. Com o seu vastíssimo conhecimento da anatomia, saberia exatamente onde puncionar as suas agulhas, mais do que os outros profissionais.
Isso ela faria com perfeição, pois aprendera a conhecer exatamente todos os pontos para trazer alívio ou quase que imediato para o paciente. Porém, devido ao seu problema ocular, ela evitava realizar o tratamento, dedicando-se apenas à fisioterapia e à quiropraxia.
***
Um dia, um paciente procurou-a de urgência, baseado na fama de Glorinha como boa fisioterapeuta. Ele queixava-se de fortes dores na raiz da coxa esquerda. Lá no alto do membro inferior esquerdo, à altura do períneo.
Glorinha examinou detidamente o paciente, fez todas as manobras posturais e, com muita maestria, diagnosticou o problema: lesão na inserção do músculo isquiotibial (parte tendínea), na tuberosidade isquiática.
Anunciou, então, a conduta mais adequada: exercícios de abdução e de convergência. Aplicação de tens e de ultrassom.
Mas o paciente continuou a gemer de dor. Ela aplicou o laser: a dor não diminuiu nada. Assim, só restava o que ela relutava em fazer: acupuntura!
“Puxa vida,” pensou, “logo hoje que o meu marido foi pro jogo no Almeidão!” Tentou ver se alguém em outra clínica poderia fazer o tratamento em caráter de urgência: debalde, não conseguiu ninguém.
E o paciente gemendo.
Diante daquele quadro e circunstância, resolveu deixar de lado os seus complexos e fazer ela mesmo a aplicação das agulhas, pois tratava-se de uma emergência.
Expostos ao paciente o diagnóstico e a solução proposta, este olhou para a cara dela e pensou em não aceitar. Mas a dor era tão insuportável… Decidiu submeter-se ao procedimento.
Ele tinha relutado particularmente quanto à aplicação das agulhas, devido à proximidade do ponto quase íntimo com os seus, digamos, Países Baixos.
Idoso e muito tímido, o paciente nada disse a Glorinha sobre temores, naquele instante. Aí, chegou o momento dela realizar o agulhamento…
Embora estivesse com muita vergonha de falar da sua real preocupação à doutora, estava tão preocupado com os órgãos muito próximos que, quando veio a primeira agulhada, superou a vergonha e gritou:
– Cuidado com os ovos! Capriche na pontariAAAiiiiii…
OPS! Que azar: Glorinha era estrábica!
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