
Durante muito tempo repetiu-se, quase como um dogma, que a guerra era apenas entre a Rússia e a Ucrânia. Quem sugerisse que a NATO desempenhava um papel muito mais profundo era frequentemente acusado de difundir propaganda ou de procurar desresponsabilizar Moscovo.
Contudo, à medida que o conflito evoluiu, essa narrativa tornou-se cada vez mais difícil de sustentar.
Hoje, a Ucrânia opera armamento fornecido pelos países da NATO, utiliza sistemas de defesa aérea ocidentais, recebe treino militar, apoio financeiro, comunicações seguras, informação de inteligência e, segundo numerosas análises públicas, beneficia de capacidades de vigilância espacial e de reconhecimento que jamais possuiria por si só.
A pergunta, por isso, deixou de ser incómoda para passar a ser inevitável: quando um alvo é identificado através de meios tecnológicos fornecidos pelos aliados, quando a operação depende de informação que ultrapassa largamente as capacidades nacionais da Ucrânia e quando os sistemas utilizados são concebidos, financiados e mantidos por países da NATO, quem está realmente a combater?
Formalmente, dir-se-á que é a Ucrânia. Na prática, essa resposta parece cada vez menos convincente e teremos que dizer que quem combate são militares ucranianos inseridos com um misto de forças NATO no terreno e fora desse terreno: nos satélites, no fornecimento de indicadores de localização, na formação militar e na própria estratégia de onde e como atacar o território russo e as suas infraestruturas.
A guerra moderna já não exige que um soldado norte-americano, britânico, francês ou alemão esteja numa trincheira para que um país participe no conflito. O poder militar exerce-se através da tecnologia, da informação, da logística, da indústria de defesa e da capacidade de manter um aliado operacional durante anos.
Sem esse apoio, teria a Ucrânia condições para realizar ataques simultâneos a centenas de quilómetros da linha da frente? Teria capacidade para localizar navios, aeródromos, depósitos de combustível ou centros logísticos com tamanha precisão? Teria conseguido sustentar uma guerra de desgaste contra uma potência nuclear durante mais de quatro anos? São perguntas que raramente encontram resposta no discurso político dominante.
Entretanto, continua a afirmar-se que "a NATO não está em guerra com a Rússia", como se a ausência de uma declaração formal bastasse para definir a realidade. Mas a História ensina precisamente o contrário: as grandes potências sempre encontraram formas de combater indiretamente, recorrendo a aliados, fornecimento de armas, financiamento e apoio operacional. Chamou-se a isso, durante décadas, guerras por procuração. É precisamente isso que estamos a assistir.
A Ucrânia paga o preço humano mais elevado. Os seus soldados morrem, as suas cidades são destruídas e a sua população vive sob o peso da guerra. Mas isso não elimina o facto de o conflito ter adquirido uma dimensão geopolítica que ultrapassa largamente as fronteiras ucranianas. Também merece reflexão o contraste entre os discursos políticos e as consequências económicas. Enquanto se repetem apelos ao reforço do esforço militar, multiplicam-se os aumentos dos orçamentos da defesa, cresce a produção de armamento e os cidadãos europeus são confrontados com maiores encargos públicos, contenção da despesa social e novos sacrifícios em nome da segurança coletiva.
É legítimo perguntar se a Europa continua a decidir livremente as suas prioridades estratégicas ou se passou a aceitar, quase sem debate, uma lógica de confronto permanente. Perante tudo isto, talvez seja tempo de abandonar os eufemismos.
Pode discutir-se se esta é juridicamente uma guerra da NATO contra a Rússia. Mas é cada vez mais difícil negar que, no plano militar, tecnológico e estratégico, a NATO deixou há muito de ser uma simples observadora. Quando uma guerra depende do armamento, da inteligência, da logística, do financiamento e da tecnologia de uma aliança militar, talvez já não faça sentido descrevê-la apenas como uma guerra da Ucrânia.
Talvez a verdadeira questão seja outra: estaremos perante um conflito em que a Ucrânia combate na linha da frente, mas onde os interesses, os recursos e a estratégia pertencem a um confronto muito mais vasto entre a NATO e a Rússia? Essa é uma pergunta que merece ser debatida sem preconceitos, sem slogans e sem receio de questionar as narrativas estabelecidas. Porque, em democracia, pensar criticamente nunca deveria ser confundido com tomar partido.
Estou decidido a mudar o titulo das minhas análises nesta matéria e passarei a referir-me à guerra entre a NATO e a Rússia, por que é disso que se trata. E nada mais!
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário