Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A DITADURA CAPILAR E A NOSTALGIA DA TOUCA TÉRMICA


Por: | 12/07/2026


   Acordei cedo, com aquela pontada de culpa que só a agenda apertada de um salão de beleza consegue impor. Hora marcada, destino selado: lavar e hidratar os cabelos. Uma rotina que, em tempos idos, era um mero capricho, hoje se transformou numa odisseia de escolhas e preços que fariam um agiota corar. E lá estava eu, diante do espelho, ou melhor, diante de uma prateleira que mais parecia a seção de cosméticos de um duty free, só que sem a parte do duty.

     Lembrei-me dos tempos em que o universo capilar se resumia a cinco, talvez seis, marcas de xampu e condicionador. A vida era simples, as opções, limitadas, e a decisão, instantânea. Não havia dilemas existenciais entre ‘reparação total’ e ‘brilho espelhado’. Era lavar, enxaguar e pronto. A grande revolução, se é que podemos chamar assim, foi o ‘três em um’. Uma heresia para os puristas, uma praticidade para os apressados. Mas, ah, que saudade daquela inocência pré-nanotecnologia!

     Hoje, o salão é um templo de consumo, um labirinto de frascos e promessas milagrosas. ‘Shampoos que chegam a marcar 500 reais’, você ouve a voz da minha memória, quase um lamento. Quinhentos reais! Para lavar o cabelo! Em que momento a higiene virou investimento de risco? Cadê a simplicidade? Cadê a touca térmica? Aquela relíquia plástica, barata, que nos fazia sentir um perigo iminente de eletrocussão, mas que cumpria seu papel com uma honestidade brutal. Era o ápice da tecnologia caseira, o auge do ‘faça você mesma’ com um toque de aventura.

   Agora, é tudo ‘tecnologia nano não sei o quê’, ‘moléculas inteligentes’ e ‘ativos botânicos colhidos na lua cheia’. Uma linguagem que mais parece bula de remédio do que descrição de produto. E a gente, feito gado, aceita. Aceita o preço, aceita a promessa, aceita a complexidade. Porque, no fundo, somos todos reféns da eterna busca pela perfeição, mesmo que essa perfeição venha engarrafada e custe o equivalente a um jantar romântico em Paris.

   Mas, confesso, há um charme perverso nessa nova era. Uma espécie de masoquismo estético que nos empurra para o abismo do consumo. A gente reclama, mas paga. Resmunga, mas experimenta. E, no fim das contas, saímos do salão com os cabelos impecáveis, sim, mas com a alma um pouco mais vazia e a carteira, bem, a carteira chorando as pitangas. E a saudade, essa sim, permanece intacta, um fio invisível que nos conecta à simplicidade de um passado onde a touca térmica era a rainha, e o xampu, apenas xampu. Que tempos, meus amigos, que tempos.



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