Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Conexões intersubjetivas

Por: | 15/07/2026

Conexões intersubjetivas

Hildeberto Barbosa Filho


O que Maurice Druon, na possível organização de uma biblioteca, chama de “famílias de espíritos”, eu chamo de conexões intersubjetivas. Decerto, uma nomenclatura mais elástica e mais flexível, se considerarmos os múltiplos elos que podem ligar autores e obras.

Tenho me valido desse curioso critério na organização de algumas estantes de minha amada biblioteca. Não digo que o utilize de maneira permanente, pois simpatizo com o método fluido de Aby Warburg, segundo o qual a ordem, ora estabelecida, pode e deve ser desordenada de acordo com os interesses e as paixões do usuário.

Isso quer dizer que uma ou duas estantes passam certo tempo arrumadas de um jeito, embora, em outras circunstâncias, venham a assumir nova organização. Os livros também mudam de lugar. Mudam, para atender a este ou aquele dispositivo lógico dentro das conexões intersubjetivas.

O critério me parece muito proveitoso, sobretudo, quando estou estudando um assunto ou um autor. Aqui, a arrumação dos livros funciona como estratégia de acesso ao conhecimento, proporcionando tensões e diálogos, condensações e deslocamentos, aproximações e antagonismos que tornam a biblioteca uma entidade mobil e viva.

Atento à singularidade da poesia de Augusto dos Anjos, por exemplo, quis, certa feita, colocar, ao lado do Eu e outras poesias, o material de que dispunha e que com ele, o livro, firmasse alguma conexão intersubjetiva. Parti da leitura dos poemas e fui, aos poucos, catalogando nomes e marcas textuais que, direta ou indiretamente,  encontram-se embutidos na música, nas imagens e nas ideias do grande elegíaco.

Claro, além dos títulos que compõem sua vasta fortuna crítica, fui juntando os nomes de gente, como Buda, Schopenhauer, Spencer, Hakael, Darwin, Comte, Shakespeare, Baudelaire, Cesário Verde, Euclides da Cunha e os expressionistas alemães: Gottfried Been, Georg Trakl e Georg Heym.

Ninguém pode negar que a dicção lírica do poeta paraibano se confronta com essas vozes que vêm da ciência, da filosofia, das artes e das letras, e que a partir das quais, enquanto “demônios culturais” de sua formação, Augusto edificou seu monumento literário e poético.

Organizadas assim, para me facilitar a convivência estudiosa com a sua poesia e para verificar, em outra medida, os liames que ela cultiva com a tradição e o espectro literário vindouro, essas duas ou três estantes resistem por um determinado período. Precisamente o período que dura a minha escolha temática ou autoral. A minha obsessão!

Tenho feito isso ao longo do tempo. Organizar os livros com base no postulado das conexões intersubjetivas me parece um modo de conviver mais intimamente com a minha biblioteca. Um modo sutil de explorar a riqueza de seus conteúdos, um modo cotidiano de conhecer seus bens materiais, porém, principalmente, sua geografia espiritual e simbólica.

Afinal, para mim a ordenação de uma  biblioteca deve ser  feita, desfeita e refeita a cada momento. O livro nunca deve estar num mesmo lugar. Sobremaneira, nunca deve estar fechado. Livro fechado, alguém já disse, é livro morto.

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FONTE: MaisPB - via Facebook - Acesse

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