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UMA CAMISA - Crônica de João Batista de Brito

Por: | 28/10/2023


João Batista de Brito

 

Estaciono o carro em frente à padaria onde compro pão todo dia, e sou abordado por um garoto, que me estende a mão, pedindo um trocado. Digo que não tenho e entro apressado na padaria.Na saída, o garoto me tenta de novo, talvez sem notar que já me pedira, ou, então, simplesmente insistindo.

Deve ter uns treze anos e, embora de boa aparência, está completamente sujo, imundo na verdade, na roupa e na pele. Usa uma camisa de tamanho um pouco maior que o seu, que lhe dá a aparência de um saiote. Vejo que na camisa está escrita uma frase, e, como tenho mania de ler frases em roupas alheias, me detenho na dele, até porque vi que era em língua estrangeira.

C´estbranché d´êtredebranché” – dizia a frase, e pude ver que a sujeira da camisa não escondia sua origem chique. Aproximei-me, toquei no tecido e confirmei: com certeza, roupa cara, comprada em euros no Velho Mundo, provavelmente na França mesmo.

Como aquela camisa de luxo fora parar no garoto pedinte? Não era muito difícil imaginar. Dei um trocado ao garoto e voltei pra casa fazendo, na mente, o percurso hipotético dessa camisa.

Teria sido assim, e se não foi, está suposto:

Moradores da favela mais próxima, o pai do garoto seria vigilante num prédio de luxo de Manaíra, e a mãe, faxineira nesse mesmo prédio.

O patrão seria um poderoso empresário, e a patroa, sem ocupação, vivia de academias de ginástica e cabeleireiros, pra driblar a idade e o tédio. Os dois filhos do casal, um rapaz e uma moça, estudaram nos melhores colégios de João Pessoa e, todo ano, mês de julho, a família toda, já saturada da Disney, ia passar férias em Paris, curtir o verão europeu.

Foi numa dessas férias parisienses que a camisa foi comprada, numa boutique famosa do Boulevard Saint-Michel. O rapaz usou a camisa por uns meses, mas depois, abusou dela, que foi parar no setor inativo do guarda-roupa familiar.

Sempre necessitada, a faxineira costumava pedir roupa velha a quem quer que pudesse acudi-la, e, um dia em que a patroa estava a fim de desvencilhar-se das tantas coisas descartáveis que atrapalhavam o ir e vir no seu espaçoso apartamento de luxo, esse item da alta costura francesa foi doado, no meio de uma trouxa inteira, com outros itens menos valiosos.

Claro que ninguém - nem patrões nem empregados - prestou atenção ao que dizia a frase nela impressa. Mas eu prestei. Prestei atenção, sim, pelo simples fato de que essa frase francesa continha um segundo sentido que serve de ilustração para a minha estória.

Traduzindo livremente, a frase dizia que “é moda não estar na moda” – um oxímoro que, como sabemos, sugere aquele conceito do mundo pós-moderno, segundo o qual o desleixo é esteticamente viável e mesmo recomendável. A expressão ´c´estbranché´ significa, em gíria, ´estar por dentro´, e portanto, ´na moda´, enquanto que ´debranché´ equivale ao inglês ´unplugged´, na acepção eletrônica, mas também no sentido comportamental de ´estar à margem´.

Lembrando o garoto de mão estendida, enfiado na sua imunda camisa chique, não consegui me livrar do fato de que quem concebeu, confeccionou e vendeu essa camisa cara estava bem longe de imaginar até onde poderia ir esse conceito de ´estar à margem´...

Ironias cruéis de uma sociedade cruelmente dividida.


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