
Benditos Escritores
Por Raimundo Silva
“A poesia não está nos versos , por vezes ela está no coração. E é tamanha. A ponto de não caber nas palavras (Jorge Amado).
Estava ontem, em Salvador, e a sensação era de que uma força um tanto quanto irresistível me apontava os caminhos que levam ao bairro Rio Vermelho. Mais precisamente, à bucólica casa - hoje transformada em Museu - onde viveu um dos casais mais emblemáticos de nossa literatura e da Politica brasileira: Jorge Amado e Zelia Gattai. Não resisti: fui visitar pela segunda vez a Casa Museu de Jorge Amado no Rio Vermelho. Coisa de um leitor que, numa época já distante, “devorou” com um apetite inesgotável boa parte de sua vasta obra, e que ainda permanece viva nos escaninhos de minha memória. A breve e doce experiência eu faço questão de partilhar aqui, como se partilha um pão: a experiência de se visitar um espaço que cultiva a memória de uma história rica não somente no campo literário, como também a de uma belíssima história de amor e companheirismo: a dos dois escritores e companheiros de uma vida.
A vinda a Salvador exige essa parada, afinal trata-se de um contato com a vida e a obra de um casal que honrou demais a literatura brasileira: Tudo o que registra a bonita história de vida pessoal dos dois e também a história literária, e que se faz memória para sempre está ali na Casa do Rio Vermelho. Foi muito especial e creio que será sempre que eu retornar, afinal foi o meu primeiro escritor. Obras como Teresa Batista Cansada de Guerra, Capitães de Areia, Cavaleiro da Esperança (sua homenagem a Luiz Carlos Prestes), Mar Morto, Juniabá, Gabriela, dentre outras inúmeras obras, ainda ecoam em minha memória de leitor devoto da literatura brasileira. Três curiosidades sobre o escritor, que eu quero aqui destacar: apesar de boa parte de seus livros serem ambientados em Ilhéus, ele nasceu em Itabuna, ambas cidades baianas. O escritor tinha uma incrível devoção por sapos, a ponto de ele e a sua companheira terem acolhido um sapo cururu e lhe dado o nome de “professor”. E por fim, em razão das perseguições que ele sofreu por parte do autoritarismo, por conta de sua ligação com o Partido Comunista, teve os seus livros queimados numa fogueira em praça pública. Tal e qual os nazistas fizeram numa praça de Berlim, cena que se tornou um símbolo da nefasta intolerância que o poder de Hitler nutria pelos que lhe eram diferentes. Cena de triste memória, mas que pode se tornar pedagógica caso lutemos pela Democracia e não permitamos que atos como esses ocorram novamente. E, em memória desses homens e mulheres que dedicaram suas vidas a lutar pela Democracia e contra o autoritarismo, alimentemos cotidianamente o lema, de que aqui os fascistas não passarão. Os fascistas, como sabemos, odeiam a arte, a cultura e a democracia. E esse texto, como não poderia deixar de ser, é em memória de Jorge Amado e Zélia Gattai.
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