MARCAS/Por Cláudia Cristina Tonelli

MARCAS/Por Cláudia Cristina Tonelli
28/12/2025

  Eu não sou o tipo ideal, desses que gera empatia. Mas a cada dia meu nariz torto, que para quase todo mundo é problema meu, esmaga minha autoestima, atrapalha minha respiração e há quem ache pouco, para quem não é persona grata nem bem vinda.    Quem vai pagar a conta da selvageria? No dia 17 de março, Sol em peixes, eu quase virei estatística. Até de quem esperei acolhida, recebi um espanto com molho de decepção por ter saído viva. Cada vez mais evito espelhos. Foco em meus pés e solos seguros. O mundo, cada vez mais dividido e bruto. Alguns afetos me foram arrancados pelo mero gozo narcísico do poder. A esses, jamais chegarei perto o bastante para que façam de mim ainda mais, carne sem valor, carne para moer, dessas que porcos fazem desaparecer. 

   Para muitos, sou mulher "de raso valor", molares faltosos, noites mal dormidas e humor questionável, mas não vou alimentar nenhum perverso prazer. 

  Março de 2025, a noite inesquecível. Nunca mais me reconheci no espelho. Mas eles também não lembravam mais do meu rosto, então tanto faz. Pintar cabelo já nem faz mais sentido. Que venha o próximo ano. Um dia depois do outro, cercado de ritos para dar sentido ao que sentido quase não vejo mais, senão o de existir um dia após o outro.    É estranho lidar com uma cara que não é a minha. Queria respirar de novo. Queria meu narigão adunco de volta. E não queria ouvir coisas como "pelo menos você está viva". A preço de quais escassezes e violências que não precisavam existir, se todos fossem minimamente humanos e honestos em nossas histórias nas partes que vos cabem? Não tenho essa ilusão. Essa é uma pergunta retórica. 

Claudia Cristina Tonelli


Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário