A ditadura islâmica está acuada no Irã - por Mario Sabino

A ditadura islâmica está acuada no Irã - por Mario Sabino
10/01/2026

A ditadura islâmica está acuada no Irã

A ditadura islâmica está acuada no Irã: parece ter chegado o momento em que o custo do silêncio é maior do que o da resistência ao regime

 atualizado 

Metrópoles


A ditadura islâmica está tão acuada no Irã, que cortou a internet para tentar conter os gigantescos protestos contra o regime e impedir a difusão das imagens da revolta popular pelo mundo.

O Irã pega fogo desde 28 de dezembro, quando centenas de milhares de pessoas das principais cidades do país perderam o medo de ir às ruas e praças para exigir que o aiatolá Khamenei e os seus asseclas deixem o poder.

O regime, entre os mais repressivos que a história já conheceu, responde com assassinatos e ordens de prisão que incluem o sequestro de manifestantes feridos em hospitais. Não haverá indulgência em relação aos revoltosos, avisou o chefe do judiciário iraniano.

Até o momento, a reação governamental matou 35 pessoas, das quais 4 eram crianças, fez centenas de feridos e encarcerou 1.500 manifestantes, de acordo com a Human Rights Activists News Agency.

É uma segunda onda bem maior do que a anterior. Em setembro de 2022, os jovens iranianos se sublevaram por causa da morte de duas jovens: Masha Amini e Nika Shakarami.

Masha foi morta pela polícia de costumes por causa do véu obrigatório mal ajustado; Nika, por sua vez, foi assassinada porque tirou e queimou o seu véu em meio ao protesto contra a morte de Masha.

Com o seu gesto, Nika saiu da vida para entrar na história. Tornou-se símbolo da geração que ousou levantar-se contra uma ditadura que agora já tem 46 anos.

Desta vez, no entanto, os protestos não se restringem à juventude, alcançam também os mais velhos. Fato auspicioso, as mulheres continuam a ter papel muito relevante, assim como em 2022.

O estopim é a inflação galopante, produto da combinação das sanções internacionais, que reduziram drasticamente a exportações de petróleo, praticamente impediram o acesso ao crédito no sistema financeiro internacional e causaram uma enorme queda das reservas do Irã, que ficou sem recursos para importar produtos essenciais, mas não para financiar, até pouco tempo atrás, os terroristas do Hamas e do Hezbollah, na guerra por procuração contra os israelenses.

Some-se à fórmula explosiva a desvalorização recorde da moeda nacional, o rial, e os déficits governamentais, que levam o governo a imprimir dinheiro para financiar a sua dívida.

A inflação já havia sido combustível de imensos protestos em 2019, os maiores ocorridos no país desde o Green Movement, em 2009, o verde como a cor da esperança contra a reeleição fraudulenta do presidente Mahmoud Ahmadinejad, amigão de Lula, e o que ela implicava: a falta de luz no fim do túnel para a corrupção e a violação dos direitos humanos.

O noticiário, contudo, erra ao creditar a sublevação popular no Irã apenas aos problemas econômicos que só aumentam. Ninguém mais aguenta viver sob um regime que, além de não prover as necessidades dos cidadãos por ser causa essencial da penúria, seria obscurantista mesmo no período medieval. É um regime que só conta com o apoio da esquerda radical europeia, como capítulo vergonhoso do seu relativismo aloprado.

À diferença dos outros protestos, as manifestações em curso são ainda mais destemidas e representativas do conjunto da população. A imagem de indestrutibilidade do regime desmoronou depois da derrota para Israel e do bombardeio americano às instalações nucleares iranianas, e o seu aparelho repressivo tem diante de si uma massa que não tem mais nada a perder.

Como disse ao Le Figaro o jornalista iraniano Nima Avidnia, ex-prisioneiro político exilado na Turquia, “o que faz nascer as revoluções é o momento em que o custo do silêncio é maior do que o da resistência”. Esse momento parece ter chegado no Irã.

A ironia é que a figura que emerge como uma referência entre manifestantes é o príncipe Reza Pahlavi, herdeiro do xá Reza Pahlevi, cuja monarquia autocrática foi deposta e substituída pela ditadura teocrática, uma troca de servidão.



FONTE: Metrópoles (metropoles.com)

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