MEMÓRIAS AFETIVAS/ Por Raimundo Silva

MEMÓRIAS AFETIVAS/ Por Raimundo Silva
27/01/2026

    Penso nas palavras que ouvi de um moço, presumo que no alto dos seus quarenta anos, sentado ao meu lado enquanto aguardávamos um voo para as nossas cidades. Falava ele no seu celular: “eu não queria que as minhas palavras fossem mal interpretadas, pois sou apenas um pai lutando por um pouco de amor de uma filha.  E que tenta expressar isto por meio de pequenos gestos e de uma voz que vem do coração”.      Foi exatamente assim e não há como esquecer, dada a emoção que ele queria passar por aquela breve ligação. Fiquei a pensar: com quem ele está falando? Quanta sinceridade, meu Deus! Quanta grandeza em tão poucas palavras! Reflito não somente na mensagem emotiva que ele queria passar, mas na quantidade de palavras amorosas e potentes do comovente discurso para a sua interlocutora ou interlocutor, sei lá. E ali estavam: palavras (dando a força de uma linguagem que ele queria expressar); pai; lutando; amor; pequenos gestos (que ali se revelavam grandes); coração; e, por fim, filha, sem nenhuma dúvida a mais acabada tradução de um apelo que se expressava naquelas comoventes palavras. Nesse mundo nada lírico em que estamos, prenhe de guerras, tiranias, ódio, preconceitos e carente de bons afetos, creio que ele precisa e muito de pessoas amorosas como aquele moço. Pessoas “capazes de apenas ser”. Pessoas que lutem pelo contínuo e fecundo cultivo do amor, da esperança e da “arte de estar em paz”. Pois é esse o espírito que me dá uma noção de uma ética de recomeço, do milagre de um renascimento, da fecunda esperança e da resistência e insistência em humanizar o árido mundo em que vivemos. Saio dali esperançoso e com a compreensão de que isso é possível. Eis aí algo que nada, absolutamente nada, pode matar: a esperança e a dignidade humana. E que as pessoas não esqueçam dessa humanidade a que esse mundo parece fazer de tudo para esquecer. Para Paulo Altomar, Carlos Henrique, Adilson Fabiano, Lia, Carla Alves, Edivânia, Carine, Diego (Grande), Uchôa, Alexandre, dentre outros, esses seres de carne e sangue, que mesmo de longe insistem em me dizer que a vida vale muito a pena e que a amizade é a sua filha mais amorosa, fruto e luz do seu bendito ventre. E o que dá sentido a ela.


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