Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau
Ao escutar a Palestra Sobre o Ano do Cavalo da Professora Wang Suoying no Centro Científico e Cultural de Macau relativa à astrologia chinesa e, especificamente, o Cavalo de Fogo, que vai inaugurar um novo período zodiacal a partir de 17 de fevereiro de 2026, pude recordar algumas das características essenciais do equídeo, transmitidas pela sabedoria popular chinesa.
Assim o cavalo começa por se conjugar mitologicamente com o dragão em Cavalo-Dragão (龙马Lóngmǎ). Esta é conjugação ideal, tanto ao nível mental como estético. Do ponto de vista espiritual, o par permite o acesso à organização do mundo pautado pela sabedoria intuitiva, já que foi no dorso deste animal que o primeiro imperador lendário chinês Fuxi (伏羲) descobriu os oito trigramas, fundamentais para a compreensão do mundo. Recordemo-los: o Céu Criativo (乾 Qián), a Terra Recetiva, (坤 Kūn), a Água abissal (坎Kǎn), o Fogo aderente(离 Lí), o Trovão ou Raio despertante (震 Zhèn), O Vento gentil e penetrante (巽 Xùn) , o Lago Alegre (兑Duì) e a Montanha tranquila (艮 Gě) . Estes oito trigramas, com as qualidades já mencionadas, deram origem aos 64 hexagramas que compõem o Clássico das Mutações, como já tive oportunidade de referir, por exemplo, no texto A Mulher na China (2007) ou no trabalho poético Visitações (2022). Pela composição dos trigramas em hexagramas se expõe um mundo que poeticamente se desvenda, consoante as capacidades intuitivas e imaginativas de cada um, com preceitos abertos às experiências existenciais passadas, mas também presentes e futuras. Cada qual poderá encontrar aquilo procura ao mesmo tempo que se cria e recria com o auxílio dos elementos reais do Céu, da Terra, do Fogo, da Água e todos os outros que considerar úteis ao seu caminho existencial, também traçado com a ajuda da mente e, sobretudo, da imaginação.
Ainda na sua ligação com o dragão na expressão proverbial “o Espírito do Cavalo-Dragão” (龙马精神Lóngmǎ jīngshén) representa a concretização de um ideal estético repleto de energia, beleza e poder de transformação, tal como são estes animais para os chineses.
Parte-se, no entanto, de um chão concreto para depois voar. A terra da sabedoria popular diz-nos que o cavalo é um animal nobre e leal, que conhece o caminho (老马识途Lǎomǎ-shítú), já que a experiência é nele a mãe da sabedoria, mas não é uma vivência qualquer: é enérgica, boa amiga e leal. Esta lealdade e energia não podia ser mais nobre, até porque desde a antiguidade chinesa os equídeos eram os fiéis companheiros dos nobres. Por isso, também o cavalo (马mǎ) surge associado na linguagem à nobreza (侯hòu) e, por um jogo de homofonias, ao macaco (猴hóu), daí que se numa pintura o macaco aparecer em cima do cavalo, significa a possibilidade de se receber um título honorífico, ou seja, de se elevar a condição.
Um cavalo pode desenvolver muita energia, sendo os mais aptos aqueles que percorrem mil milhas (千里马Qiānlǐmǎ), sejam equídeos ou humanos, porque também há gente a transbordar de capacidade e energia, à semelhança destes animais, estando em posição mais favorável para cultivar o entusiasmo e o dinamismo os que tiveram a bênção de nascer sob os bons auspícios do Cavalo. Este ano de Fogo.
A sugestão é a de regressar ao Clássico das Mutações (易经Yì jīng), para se procurar perceber o que tem para oferecer o hexagrama do Fogo, que é aderente e brilhante, composto por dois trigramas de Fogo (离下、离上 Lí Xià, Li Shàng), portanto a representação do elemento em estado puro, possibilitando deste modo a compreensão das características fundamentais do Cavalo de Fogo que entra a meio de fevereiro. Lê-se na interpretação de Richard Wilhelm, traduzido para inglês por Cary F. Baynes (1989, 118-121), que o fogo é dependente, está sempre condicionado a algo ou outrem, por exemplo à combustão da Madeira, só assim consegue ser tão vivo e brilhante, e quanto mais arde, mais se eleva da terra rumo ao céu. No juízo das linhas é-se informado que caso adira com perseverança tal como uma vaca, terá o sucesso garantido (離,利貞,亨。畜牝牛,吉。2) (Zhang, 1995,131). No que respeita a sua imagem, surge a iluminar e duplamente, já que quando brilha o faz para si e para os outros (《象》明兩作,離;大人以繼明,照於四方) (Zhang, 1995,135)., tal como o sol ao longo do dia brilha e aquece a terra. Sendo um elemento condicionado, como afinal todos os outros, num mundo em interdependência, tudo o que não for arder pela positiva e para o bem deve ser abandonado, tal como os antigos chefes chineses dos finais das dinastias que deixavam de ser modelares e se tornavam caprichosos e destrutivos.
A energia positiva do Cavalo de Fogo é como um sol benfazejo que a todos inspira.
Caso se pergunte a o maior de todos os poetas chineses, Li Bai (701-762), aqui na tradução de António Graça de Abreu, em Cem Poemas de Li Bai 李白诗一百首 quais as virtudes a que associa ele ao cavalo, lemos em resposta, por exemplo, em “O teu cavalo baio 君马黄” que é à amizade e à experiência de vida, com os seus altos e baixos, mas sempre merecedora de ser vivida na companhia de bons amigos:
君马黄,我马白。
马色虽不同,人心本无隔。
共作游治盘,双行洛阳陌。
长剑既照曜,高冠何赤3赫。
各有千金裘,俱为五侯客。
猛虎落陷阱,壮士时屈厄。
相知在急难,独好亦何益。
O teu cavalo é baio
o meu cavalo é branco.
Diferente a cor dos cavalos,
semelhante o coração dos amigos.
Pelas ruas de Luoyang
conhecemos dias felizes,
espada à cintura, chapéus altos,
valiosos casacões de pele.
convidados de cinco marqueses.
Mesmo os tigres caem na armadilha.
Hoje fortes e valentes,
Amanhã sujeitos às desventuras da sorte.
Se tal um dia acontecer,
A ajuda de um amigo.
(Abreu, 2021, 174)
Num salto até aos tempos contemporâneos, vai-se encontrar no poeta Yao Feng (1958-), em Palavras Cansadas da Gramática (2014) a mesma leitura tradicional e uma identificação interessante com o cavalo, em “Cavalo Velho”, preservando a ideia da amizade que se estende ao longo dos séculos chineses, mas numa apresentação ao avesso da condição livre do animal, que surge, tal como sucede mutatis mutandis a tantas pessoas, triste e aprisionado, contranatura, a uma carroça, ou seja, a uma condição social, traduzida na prestação de serviços a outrem:
Habituado ao cocheiro, aos transeuntes, aos carros
Esquecido de como é galopar
Pele suja e flácida, sombria como o fim do dia
Os cascos ferrados tornam o trilho na planura
Ainda mais longo
Sentado numa ruidosa taberna da vila
Vi um cavalo vergado ao peso da carroça
Encosta acima e gostaria
De lhe dizer na sua língua:
Entre cá velho amigo, pago-te um copo!
(Yao, 2014, 122)
É por certo contra a natureza essencial dos equídeos deixarem-se aprisionar, eles que amam correr em liberdades pelas pradarias e estepes, pelas montanhas e vales, podem ser domesticados por amizade, sofrendo e participando no lugar da ordem social que os humanos lhes destinaram. E à semelhança das pessoas, também eles envelhecem perdendo muito do vigor e energia com que nasceram, o que se reflete na pele que larga o brilho e que descai flacidamente. Mas enquanto estão na força da vida, e se têm a sorte de se manterem em liberdade, não há maior dinamismo do que o deles.
Para concluir, o meu tributo poético ao Ano do Cavalo que galopa em nossa direção a transbordar de força, entusiasmo e alegria:
Cavalo de Fogo
Belo, veloz, sonhador,
Corre contra a dor,
Crescendo em vento ou brisa
na esteira das flores,
Elas dançando à passagem,
das patas carregadas de terra e calor.
Belo, veloz, sonhador,
carrega o macaco,
E no dorso o dragão,
chamam-lhe o Espírito
do Cavalo-Dragão.
龙马精神
Horse-Dragon Spirit,
Em ano que traz o brilho
e a luz como arautos,
soando forte e bem alto.
Bibliografia
Abreu, António Graça de. 2021 (Org. e Trad.). Cem Poemas de Li Bai 李白诗一百首. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim.
Alves, Ana Cristina. 2022. Visitações. Fafe: Labirinto.
________________. 2007. A Mulher na China. Lisboa: Editorial Tágide.
Wang Suoying. 2026. Palestra sobre o Ano do Cavalo. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau. Palestra proferida a 8 de fevereiro.
Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group.
Yao Feng. 2014. Palavras Cansadas da Gramática. Lisboa: Gradiva.
張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚.
Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.
Texto em chinês tradicional.
Há um sinograma arcaico para vermelho que alia vermelho a cor, e que está no texto original, mas que não consegui encontrar, pelo que fica o registo em separado: 赤+色, assim como a sugestão de aproveitar a ocasião para consultar o poema no original.

