O PROGNÓSTICO/Por Adriana Dweck

O PROGNÓSTICO/Por Adriana Dweck
12/02/2026

   De antemão, espero não errar o prognóstico, mas acredito que não se pode menosprezar os resultados das eleições em Portugal e que esse vento há de se espalhar pelo mundo. A direita, tal como está configurada hoje, já teve até fôlego demais, na minha avaliação, e não apresenta um projeto de governo que vá além do primeiro ano de mandato. As medidas propostas, sempre tentando agarrar os votos dos eleitores ressentidos, são muito mais antiliberais do que qualquer proposta associada à esquerda.

 Se pensarmos nos movimentos como o Occupy e nos protestos recentes vindos da esquerda, eles não possuem o caráter antissistêmico que se vê, por exemplo, na eleição de Trump ou no movimento bolsonarista no Brasil, marcados por uma lógica de corrosão institucional e enfraquecimento do Estado. A tradição da esquerda está ligada, de modo geral, ao fortalecimento do Estado ou, em uma visão que considero mais apropriada, ao fortalecimento do caráter público do aparato estatal. Seja por uma via ou por outra, o horizonte permanece o mesmo: organização coletiva como condição da ação política.

  Já a direita contemporânea mobiliza com frequência uma retórica de desorganização e fragmentação porque, há muito tempo, deixou de possuir um horizonte político consistente de longo prazo. Não há mais a euforia agressiva e jovial dos futuristas, mas a depressão crescente da geração precarizada. Os assim chamados movimentos populistas - Trump e Bolsonaro e Milei entre eles -, pouco tem a ver com a expectativa ideológica de uma melhoria de vida. Pelo menos quarenta anos de violência financeira e humilhação social, frutos do neoliberalismo, transformaram a subjetividade de grande parte das populações, que se tornaram psicopaticamente agressivas e impermeáveis à sensibilidade humana. O movimento que se espalhou mundo afora não é ideológico, mas cínico e, de certo modo, suicida. É hora de parar. Que os ventos vindos de Portugal se espalhem.


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