
Quem nem sabe de quem estou falando, Chuck Palahniuk é o autor do livro "O Clube da Luta", que inspirou o filme homônimo, onde ambos partem da premissa perturbadora de que a sociedade está por um fio para explodir. Seus contos são ainda mais perturbados, que vão do desespero ao escatológico. Com ele nada é normal, muito menos a anormalidade (isso mesmo, pois o critério de normalidade fica muito flexível depois que você lê algum de seus livros).
Eu li três livros e duas coletâneas e confesso que pelo menos duas vezes meu estômago deu sinais de que ia expulsar todos os intrusos dali de dentro.
Foi justamente essa crueza aparentemente realista, mas que flerta com o fantástico, o que me fez repensar Machado de Assis pela minha ótica mais insana.
Bentinho tem certeza de que Capitu o traiu, mas é feliz demais no casamento para dar um fim àquela humilhação. Depois que Escobar morre, ele volta na pele de seu filho ilegítimo para assombrar um corno já assombrado pela certeza. Depois, como se fosse um Retrato de Dorian Gray ao contrário, é o personagem que enfeia enquanto seu reflexo permanece jovem e belo. Bentinho mantém as aparências, mas está cada vez mais corroído por dentro.
Nem quero entrar no mérito de O Cortiço, nosso "mea culpa", sem exorcizar os fantasmas do racismo, da ganância, do jogo de aparências, do alpinismo social, da falta de escrúpulos, da traição, da violência e do abuso sexual. Ali, o pobre do Chuck Palahniuk nem paga para ser diante do realismo nu e cru de Aloisio Azevedo. Só o fim de Bertoleza o faria querer fechar o livro.
Voltando a Machado, "Esaú e Jacó" retrata a rivalidade entre os gêmeos Pedro e Paulo, no Rio de Janeiro do final do século XIX que discordam em tudo, menos no desejo pela mesma mulher, uma tal de Flora. Nada mais psicótico do que criar dois irmãos rivais e arranjar a mesma mulher para ser o objeto de desejo dos dois. Ela acaba virando uma prévia da fútil Margarida disputada pelo azarado Donald e pelo sortudo Gastão. A história, narrada pelo Conselheiro Aires, aborda a ambiguidade das relações humanas, a instabilidade da identidade e o oportunismo no conturbado período entre a Abolição e a Proclamação da República.
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o narrador é um defunto que relata sua vida sem medo de julgamentos, pois a morte o livrou de acusações e punições. Livre das amarras da vida, Brás Cubas denuncia, ironiza, discorda e destila um humor negro que certamente nunca o fez quando era vivo. Em "A Causa Secreta", Machado nos apresenta um rico sádico que ama observar o sofrimento alheio disfarçado numa falsa compaixão. Já em "O Espelho", o status e a aparência se tornam a essência da alma de um homem que só é percebido pela sociedade quando veste a sua farda de Alferes, a ponte de nem mais enxergar a si próprio sem a farda.
Por fim, "O Alienista" deu a um homem o poder de demolir uma cidade inteira sem precisar usar nenhum explosivo, apenas a convicção e um poder ilimitado que lhe permite considerar qualquer um como louco e mandar internar num hospício. A população de Itaguaí não pega em armas para depor o ditador da ciência, mas é o próprio Simão Bacamarte que se interna no hospício por se achar "saudável demais".
Acho que ler muitas histórias cerebrais pode causar dano cerebral irreversível, que acontece quando nos vemos representados em personagens perturbados. Preciso parar de ler Chuck Palahniuk antes que eu forme um Clube da Luta, mas só de mulheres.
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