
Às vezes a paz compensa: ninguém morre, cidades não são destruídas, plantações não são queimadas, populações não são expulsas de suas terras e todo mundo prospera.
O problema é que no nosso íntimo nos vemos como guerreiros de alguma causa ridícula e vemos a guerra como um evento inevitável e até necessário ao desenvolvimento da população.
Pura balela.
Viveríamos melhor sem guerras. Os avanços que os ingênuos acham que as guerras trazem viriam de forma bem mais eficaz através do comércio ou da simples troca de conhecimento.
Acho que o problema é o grego antigo que habita em nós, com seus corpos esculturais, sua filosofia profunda, sua matemática certeira, seus políticos exemplares e suas cidades bem planejadas. Porém, acreditavam que o auge da vida de um homem seria perecer heroicamente numa guerra. Fosse contra quem fosse, inclusive outros gregos.
E assim chegaram à mais inútil das guerras: a Guerra do Peloponeso, onde uma Grécia próspera, senhora do Mediterrâneo, com suas cidades fantásticas com todos aqueles gênios admiráveis, resolveram apostar tudo numa aventura ridícula. No final, os persas emergiram como xerifes do Egeu e acabaram ajudando Atenas matando o traiçoeiro Alcebíades - uma espécie de versão bela e bélica do ex-Prefeito de Niterói Moreira Franco.
Reparem que quanto mais bundão o país, maior a exaltação de um passado de vitórias militares que nunca existiu.
O hino nacional boliviano canta em uma de suas estrofes: "Antes mortos que viver como escravos", já o hino mexicano tem a seguinte estrofe: "Mexicanos, ao grito da guerra, Empunhe a espada e a rédea". O que México e Bolívia têm em comum é que nunca venceram guerra nenhuma. O México perdeu metade de seu território para os EUA e não anexaram toda América Central porque os republicanos não quiseram esperar a adesão das cidades centro-americanas ao Império Mexicano, ou seja, foram incompetentes tanto para perder quanto para ganhar. Já os bolivianos começaram errando ao se separarem do Vice-reinado do Rio da Prata e por perderem a chance de se unirem ao Peru, perdendo nacos de seu território para todos os vizinhos, o que inclui até o Paraguai.
Sei não, mas se eu fosse boliviano viraria pacifista da linha Dalai Lama para não passar vexame.
E Portugal? Um dos países mais insignificantes no contexto político europeu, tem a seguinte estrofe em seu hino: "Às armas, às armas! / Sobre a terra, sobre o mar / Às armas, às armas! Pela Pátria lutar / Contra os canhões marchar, marchar!"
As Guerras Napoleônicas quase destruíram a Revolução Francesa e a Primeira Grande Guerra destruiu uma Europa rica e próspera a troco de nada. Tudo pagação de mico.
E os EUA?
Emergiram como "mocinhos" da humanidade quando derrotaram as ameaças nazista na Europa e japonesa na Ásia. Deram um cacete em meio mundo e saíram-se melhor do que o esperado. Eles foram pra casa contar vantagens, certo?
Errado!
Quase apanharam na Guerra da Coreia, apanharam feio no Vietnã, fizeram intervenções desnecessárias na América Latina para sustentarem elites moribundas e foram puxar briga no Oriente Médio, com seus ditadores excêntricos e exércitos de parada militar. Depois de tudo, injetaram trilhões de dólares no Iraque e no Afeganistão só para concluírem o que todo mundo já sabia: que não ia dar em nada.
Para variar, estão bancando uma guerra contra uma potência de nível médio para baixo no Oriente Médio, deixando um rastro de destruição que só fará acender outros rastros de pólvora.
A paz teria sido uma opção melhor.
Os EUA poderiam gastar esses dólares na América Latina, promovendo a construção de infraestrutura e fortalecendo as instituições locais. Vinte anos depois, ninguém falaria de retirar tropas porque elas nunca teriam sido necessárias e o problema dos "imigrantes indesejáveis" em solo dos EUA estaria solucionado. Sem esquecer que uma América Latina rica e próspera significaria mais turistas para os EUA, ávidos por compras, a incrementar os negócios locais e afastar os fantasmas das crises que os assolaram nos últimos 20 anos.
É preferível pagar uma garota/garoto de programa do que um mercenário, numa versão bem capitalista do "faça amor e não faça guerra".
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